O Carnaval tem muito a ensinar

iG Minas Gerais |

Mesmo quem não gosta de Carnaval é obrigado a admitir que os desfiles das escolas de samba nas duas maiores cidades do país vêm se mostrando cada vez mais organizados, muito diferente do que acontece com a sofrível, para não dizer pífia, administração do nosso futebol. Essa gritante diferença entre as duas maiores expressões da cultura brasileira tem um motivo muito “simples”, que deveria servir de inspiração para encorajar os dirigentes dos nossos clubes a se livrarem dos presidentes de federações estaduais e da CBF de uma vez por todas. Nem sempre foi assim! O grande salto para que os desfiles de São Paulo e do Rio de Janeiro fossem como são hoje, considerados os maiores espetáculos da Terra, foi a criação das respectivas ligas das escolas de samba das duas localidades. Na Cidade Maravilhosa, a entidade apareceu em 1984. Já em Sampa, foi em 1986. As pessoas que fazem o espetáculo do Carnaval perceberam o óbvio e se perguntaram: “Por que um produto tão bom quanto o nosso é administrado por quem não entende nada disso?” No caso, os poderes públicos dos municípios em questão. O mesmo questionamento vale para o futebol nacional. Por que os jogadores e os clubes, que são a razão de ser do futebol, juntamente com os torcedores/consumidores, têm que se submeter aos interesses das federações estaduais e da CBF, que, a cada ano, se superam na confecção de calendários ridículos, que atendem muita gente, menos aos atores principais do “espetáculo”, que, graças a essas agruras, está cada vez pior? Basta ver as médias de público do futebol pentacampeão mundial. A criação da liga dos clubes, como já existe nos países europeus onde o futebol é mais desenvolvido, está passando da hora. Claro que as ligas das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo não são as maiores maravilhas do mundo, mas, pelo menos, quem é rebaixado na avenida vai para a Segundona mesmo, independentemente de ser escola grande ou pequena. Isso sem falar que não existe STJD. O resultado do asfalto/campo é respeitado, mesmo no caso do desfile deste ano no Rio de Janeiro, quando a Unidos da Tijuca foi a campeã por um décimo de diferença sobre o Salgueiro, que ficou com o vice. Os regulamentos são claros, com quesitos pré-definidos de desempate e com julgadores que têm notória ligação com o Carnaval e não estão nas comissões julgadoras por serem filhos, irmãos, netos, colaboradores e assessores de presidentes e ex-presidentes dos tribunais A, B ou C. As ligas permitiram ainda que as escolas de samba fizessem melhores contratos com patrocinadores e com as TVs que transmitem os desfiles, sem intermediários e sem taxas disso ou daquilo, como acontece nas federações e também na CBF. Será que os dirigentes dos clubes brasileiros não enxergam isso? Diante de tantos atrasos, tanta desorganização e tanto dinheiro do contribuinte jogado pelo ralo na Copa do Mundo no Brasil, é caso de se pensar. A Copa poderia ter sido organizada pelas ligas das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Apenas uma das punições previstas nos desfiles seria muito interessante de ser vista nos preparativos para o maior torneio esportivo do mundo. Cada minuto de atraso na finalização de obras/desfiles custaria a perda de pontos/verbas importantes, ou até uma possível desclassificação.  

Sem ingenuidade. Não sejamos hipócritas em ignorar a histórica influência de contraventores – para dizer o mínimo – com as escolas de São Paulo, mas, principalmente, com as do Rio de Janeiro. O Jogo do Bicho sempre esteve ligado à grande parte das agremiações cariocas, mas eles conseguem fazer um grande espetáculo, coisa que os organizadores do nosso futebol não conseguem.

Ressalva. O Carnaval do Rio de Janeiro tem uma outra característica que o torna ainda muito maior do que o de São Paulo, pelo menos do ponto de vista do marketing positivo. Ao contrário do que acontece cada vez mais na capital dos paulistas, nos desfiles da Cidade Maravilhosa ainda não se vê, pelo menos no grupo especial, os bandidos transvestidos de torcedores das organizadas. Muito bom!

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