Os silêncios de uma ditadura

Em “Formas de Voltar para Casa”, o escritor Alejandro Zambra fala sobre os anos sob o governo de Pinochet

iG Minas Gerais |

Lembrança. Zambra afirma que o romance é uma forma de recordar uma época envolta em sombras
cosac/divulgação
Lembrança. Zambra afirma que o romance é uma forma de recordar uma época envolta em sombras

São Paulo. Uma ditadura não é formada apenas por mandantes intransigentes e revoltosos incansáveis – no meio do caminho, há sempre uma população silenciosa, que vive aquele período sem heroísmo, com medo ou indolência. É sobre essas pessoas que o escritor chileno Alejandro Zambra trata em “Formas de Voltar para Casa”, que a Cosac Naify lança na segunda-feira, 10. Fruto de anotações que o autor tomou durante quatro anos, a narrativa alinha momentos fictícios com reais ao mostrar um homem que relembra sua infância, passada durante a ditadura (1973-1990) de Augusto Pinochet, uma das mais sangrentas da América Latina, promovendo, segundo dados oficiais, 1.200 desaparecimentos, 3.00 execuções e inúmeros casos de tortura. Confira a seguir trecos da entrevista com o autor.

Por que uniu real e ficção para transmitir sua mensagem? Não acredito muito nessas categorias de ‘ficção’ e ‘não ficção’, pois todos os romances são autobiográficos, em certa medida. Gostaria de pensar que isso tem a ver com a poesia, que se relaciona de maneira muito mais problemática e evasiva com a ficção. “Formas de Voltar para Casa” não é mais autobiográfico do que “Bonsai” ou “Vida Privada das Árvores”, mas não aparenta sê-lo, talvez por ser meu primeiro romance escrito em primeira pessoa. Mais que narrar os feitos, interessava-me mostrar como convivemos com o passado, com a necessidade de entendê-lo, de mostrá-lo, de indagar quem somos. O narrador do livro tem muito de mim, mas me parece que o importante é que esse ‘eu’ é também, em certa medida e apesar de tudo, um ‘nós’. Creio que um problema dos chilenos da minha geração, nascidos em meados dos anos 70, é essa hesitação entre o ‘eu’ e o ‘nós’.

Por que a história é narrada a partir do olhar de um menino?

Creio que, em boa medida, esse romance nasceu do desejo de recordar melhor, com mais precisão, essa época quase sempre envolta em sombras, até no presente. Quando lembramos da infância como adultos, tendemos a idealizá-la ou ter dela a pior das imagens, pois é perturbador saber que estivemos ali sem ter consciência daquilo que estava ocorrendo. Mas alegar inocência é tão absurdo quanto se culpar retrospectivamente. Esse é um dos problemas centrais que quis abordar no romance – não para escrevê-lo, e sim por ser um dos problemas centrais da minha vida. E logo cheguei à ideia desse narrador, que não é um menino, e sim um adulto lembrando da infância, mas tentando recordar bem, evitando catalogar de antemão a experiência.

Você usou o romance para poder ir ao fundo de sua história pessoal, de sua relação com seus pais e sua infância?

Claro. Essa é uma maneira de encarar a obra. Quando crescemos, tornamo-nos outras pessoas e, em algum momento, perdemos totalmente o elo com a criança que fomos. Isso é natural, mas também artificial. Este romance é o livro de alguém que quer entender de onde vem, sem fechar o passado – ao contrário, abrindo-o, permitindo a circulação das histórias, por mais anódinas ou tristes que sejam. Meu interesse era falar sobre essa classe média ou média-baixa da qual venho, das pessoas que viveram aqueles anos sem heroísmo, com medo ou indolência, sem participar ativamente, silenciosos e/ou silenciados.

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