O sinal da menininha

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Em uma noite dessas, sonhei com a menininha do sinal. Essa menina, como tantas outras, fica na rua pedindo dinheiro para as pessoas que, dentro dos carros, esperam o sinal abrir. Porém, fiquei tão comovida com essa menina que ela acabou visitando o meu sonho. Como a maioria das pessoas, atualmente eu não costumo andar com os vidros do carro abertos. Diante de toda a violência que nos cerca, melhor é sentir calor ou economizar para comprar um carro com ar-condicionado. Sendo assim, ninguém se dá mais ao trabalho de dizer o tradicional “não tenho”. O mais fácil é simplesmente acenar a cabeça negativamente ao ser abordado nos sinais. Dessa forma, assim como todos os profissionais, os pedintes também tiveram que se especializar. Antigamente, eles só diziam: “Ô, dona, me dá um trocado?”, e era o suficiente. Com a barreira dos vidros fechados, eles estão tendo que usar a criatividade. Começaram com aquela mania de lavar os vidros. Uma mania muito chata por sinal, já que o vidro e o carro ficam mais sujos do que antes. Sem pedir, lá vinham eles com seus esguichinhos e panos imundos, e, quando a gente se dava conta, o vidro estava engordurado e eles já estavam na janela pedindo uma contribuição pela “boa ação”. Quando as pessoas se acostumaram a esse procedimento, começaram a abrir os vidros e a dizer não à menor aproximação deles, para não dar tempo de um único pingo atingir o carro. Tiveram que mudar de tática. Começaram a fazer plaquinhas para explicar o motivo da abordagem. “Preciso comprar material escolar, comida e remédios pros meus filhos, eu podia estar roubando, matando...”. Explicavam muito bem explicadinho e gastavam todo o seu vocabulário para provocar a piedade alheia. Adiantou muito pouco. Começou, então, a moda das balas em saquinhos. Interessante essa tática. Fácil e prática. Largavam o saquinho em cima do retrovisor e a gente só tinha que pegar e colocar um real no lugar. A princípio deu certo. Se as balas fossem um pouco melhores, confesso que eu até contribuiria mais vezes. Mas a novidade se desgastou. Ficou tão comum que ninguém mais se dá ao trabalho de verificar se tem bala nova no saquinho. Foi quando surgiram os malabaristas. No começo foi legal. Depois eles começaram a incrementar demais, jogar fogo pra cima e eu fiquei com um certo receio de errarem a mira e acontecer um acidente no meio daquele combustível todo. Acho que as outras pessoas também acharam isso e pararam de contribuir, pois eles sumiram. Eu já estava esperando a próxima inovação, quando vi a tal menininha. Não deve ter mais do que 9 anos e já “trabalha” todos os dias. Mas ela age diferente dos seus coleguinhas da mesma idade, que ainda não notaram a concorrência das ruas e ainda estão no estágio simples do pedir. Essa menininha deve ter observado os tais malabaristas e achou bonito. Ou imaginou que também devia fazer alguma coisa para merecer os trocados. Ou, quem sabe, sentiu vontade de exibir seus dotes no meio da rua. Não sei. O fato é que ela conseguiu me causar maior comoção do que todos os outros pedintes e, desde então, eu gosto de parar nesse sinal para observá-la. Ela simplesmente dança na frente dos carros. Roda pra cá, roda pra lá, faz um salamaleque com a mão, sorri e agradece no final do seu “número”. Eu tenho vontade de bater palmas. Mas, em vez disso, sempre lhe dou umas moedas pelo seu show. E ela é uma garota esperta, a cada dia inventa uma nova coreografia para sua fiel plateia não ficar entediada. Acho que tem funcionado. Ao olhar os carros em volta, percebi que não é só a mim que ela consegue convencer. Os outros pedintes deviam seguir o exemplo dela. Em vez de truques ensaiados para agradar os outros, a menininha simplesmente é ela mesma. Naturalmente, oferece o que sabe fazer de melhor e sai dançando por entre os carros, alegrando a rotina da gente. Talvez, por isso, ela tenha aparecido no meu sonho. Uma espécie de sinal para me mostrar que a vida não precisa ser tão complicada. Basta a gente dançar a nossa própria música e sorrir. Depois, é só agradecer. E o mundo se encarregará de mandar as moedas e bater palmas.

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