Careta e papada dupla são a regra agora para as selfies feias

Blogs e Tumblrs são especialistas em compartilhar essas expressões curiosas

iG Minas Gerais | Jessica Bennett |

Adolescente. Ruby Karp, 13, prefere os ângulos engraçados
Yana Paskova / The New York Time
Adolescente. Ruby Karp, 13, prefere os ângulos engraçados

Nova York, EUA. Ruby Karp, 13, estava sentada no canto escuro de uma cafeteria em Manhattan, em Nova York, segurando um iPhone cintilante debaixo do queixo. Ela comprimiu o rosto e inclinou a cabeça para baixo. “Essa é a papada dupla desconfortável”, disse, batendo uma foto de si mesma.  

Ela mandou a foto para meia dúzia de amigos e novas imagens pipocaram na tela. A primeira, de sua melhor amiga, era um close inclinado da bochecha da garota, com a boca fazendo uma careta torta (a foto “esquisitona”, disse Ruby). A segunda era de uma testa jovem franzida formando linhas exageradas (o “homem triste chorando”).

“Qual é a dessas selfies feias?”, a mãe de Ruby, Marcelle Karp, quis saber. Ruby riu. “É engraçado. E dá tanto trabalho para fazer uma ‘selfie’ em que ficamos bonitos”, disse a filha.

“Selfie” foi escolhida a palavra do ano de 2013 pelo Oxford Dictionary; o cantor canadense Justin Bieber e o ator norte-americano James Franco são mestres da forma. A socialite norte-americana Kim Kardashian foi notícia com uma selfie de maiô que parecia fio-dental. Existem selfies enviadas do espaço e debaixo d’água, e 91% dos adolescentes costumam compartilhá-las, segundo levantamento recente do Pew Research Center.

Porém, também existem as inevitáveis preocupações que surgem com qualquer moda na internet e adolescentes: relatos de reputações destruídas e imagens seminuas viraram virais, listas de “gostosa ou não” e rankings de atratividade (geralmente dos garotos). A selfie sexy, para garotas, de qualquer forma, se tornou um rito de passagem virtual; a selfie fofa, geralmente envolvendo horas de tentativa e erro para conseguir uma única foto impecável, é uma ferramenta moderna de flerte.

Em meio a torsos nus e sorrisos perfeitos que pipocam com tanta frequência na tela, surge a explosão da selfie feia, uma amostra de autenticidade em uma mídia geralmente filtrada. Faça um passeio por Selfie.im, aplicativo para compartilhar selfies dominado por adolescentes para o iPhone e não se verá ninguém fazendo beicinho.

Nesse universo surgem closes de papadas duplas, interiores de bocas, poros sem maquiagem, rosnados exagerados mostrando os dentes e “lábios de pato” fotografados tão de perto que ficam grotescos.

No Instagram, moças usam hashtags como #selfiefeia para se comunicar com contorções faciais. E um blog do Tumblr chamado “Pretty Girls Making Ugly Faces” (garotas bonitas fazendo caras feias) apresentam fotos de antes e depois de garotas enviando as contorções faciais mais exageradas. “Não é preciso mandar uma foto ‘bonita’”, escrevem os curadores do blog. “Contudo, não se esqueça de tornar feia sua foto feia”, dizem.

Não surpreende que as mulheres tenham se deliciado com as exibições emocionais amalucadas da queridinha dos EUA Jennifer Lawrence (“Faces of Jennifer Lawrence” é um site popular no Tumblr) e as muitas variações do agora deplorável “rosto de choro” da também atriz Claire Danes (como escreveu a “New Yorker”, “uma prova da queda de Danes pela autoexposição é sua disposição em parecer feia”).

Curta. No Festival de Cinema Sundance em janeiro, 18 garotas adolescentes foram o tema de um curta-metragem, “Selfie”, criado durante uma oficina de um dia na qual elas foram incumbidas da missão de capturar, em selfies, as imperfeições físicas que normalmente excluiriam: espinhas, sardas, queixos duplos e braços. Segundo a diretora, Cynthia Wade, a intenção era começar um debate sobre os padrões culturais da beleza e da autoestima.

“Nós passamos tanto tempo tentando esconder nossas imperfeições porque a cultura estabeleceu que é preciso se envergonhar se você não for perfeita. Acho que as garotas estão cansadas disso. De repente, elas estão muito mais dispostas a adotar o feio ou irônico”, disse Cynthia.

Compartilhado

Instagram. Somente durante a tarde desta sexta, havia mais de 83,7 milhões de resultados para #selfie no Instagram. Para #uglyselfie, eram mais de 36,3 compartilhamentos na rede social.

Autorretrato é uma forma de expressão já muito antiga Nova York. Da mesma forma que a disponibilidade de espelhos durante a Renascença permitiu aos pintores virar os pincéis para si mesmos, o smartphone tem permitido tudo quanto é tipo de experimentação. “Acho que estamos ricocheteando coletivamente da fadiga da perfeição”, disse Pamela Grossman, diretora de tendências visuais da Getty Images. Existe uma longa história de mulheres utilizando o autorretrato como forma de autoexpressão radical (pense em Frida Kahlo, por exemplo). Na verdade, acredita-se que foi uma adolescente – uma grã-duquesa russa – quem bateu a primeira selfie da história, com uma câmera de caixa em 1913. Todavia, as imagens da beleza moderna, as que vemos refletidas na mídia, mantiveram uma definição particularmente rígida: refinada, pequena, modesta, amigável e praticamente sem emoções, disse Nancy Etcoff, psicóloga cognitiva de Harvard e consultora do filme “Selfie”, que recebeu verba da Fundação Dove.

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