Cozza enfrenta a Guerreira

Sambista paulistana mergulhou no repertório e na vida de Clara Nunes para criar o CD e DVD “Canto Sagrado”

iG Minas Gerais | Jáder Rezende |

Pesquisa. Mais do que um tributo musical, Fabiana Cozza quis registrar a importância de Clara Nunes num precioso extra: um documentário com a participação de parentes e amigos da mineira
fernanda grigolin/divulgação
Pesquisa. Mais do que um tributo musical, Fabiana Cozza quis registrar a importância de Clara Nunes num precioso extra: um documentário com a participação de parentes e amigos da mineira

A sambista mineira Clara Nunes dá o tom, em dose dupla, à mais nova produção de Fabiana Cozza. Em seu quarto trabalho independente, “Canto Sagrado”, gravado ao vivo em agosto do ano passado no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, e transformado em CD e DVD, a sambista paulistana faz releituras singulares dos maiores sucessos da Guerreira.

Com direção musical do baixista André Santos e produção musical do violonista Paulão 7 Cordas, o disco prima pela produção refinada, marca registrada de Cozza em todos os seus trabalhos. No DVD, que traz como extra documentário inédito sobre Clara Nunes, a magia fica por conta da direção cênica da atriz Olívia Araújo e direção de movimento do bailarino e coreógrafo, JC Violla.

Considerada pela crítica e também pelo público como uma das mais representativas intérpretes da MPB contemporânea, Fabiana Cozza revela, em entrevista exclusiva, momentos marcantes da turnê, conta detalhes da produção do documentário e anuncia sua vinda a Belo Horizonte ainda neste semestre.

“Clara Nunes sempre foi uma das cantoras que mais me emocionam, que mais admiro. Fui muito influenciada por seu cantar. Comecei a pesquisar e revisitar o repertório que ela gravou e descobri preciosidades de que não me lembrava”, conta Fabiana Cozza, revelando que a decisão de fazer um trabalho consistente, fugindo da cópia, arregimentou profissionais de peso.

Além de Olívia Araújo e JC Violla, ela convidou para assinar a direção musical o baixista André Santos, que também dividiu os arranjos com o pianista Edson Sant’anna. Na banda, músicos que despontam no cenário paulistano como os percussionistas Douglas Alonso, Léo Rodrigues e Da Lua, o cavaquinista e bandolinista Henrique Araujo e o violonista Lula Gama. “Me cerquei de pessoas muito críticas e competentes pra criar ‘Canto Sagrado’”, atesta.

Fabiana Cozza foi contemplada pela lei do Proac/SP para produzir o DVD e 12 shows, mas decidiu ampliar o projeto, produzindo um documentário e o CD às próprias custas. O primeiro passo foi fazer contato com a irmã mais velha de Clara Nunes, conhecida como Dona Mariquita, a Dindinha. A sambista seguiu, então, para Caetanópolis, cidade natal de Clara Nunes, na região de Sete Lagoas, para o tão esperado contato físico. O depoimento de Dindinha norteia e desenha o documentário inédito produzido por Fabiana, por meio de sua empresa, a Agô Produções.

“Sempre tive interesse em conhecer a ‘pessoa’ da Clara, seus amigos, sua casa, seus pensamentos, sonhos. Achei que ir à Caetanópolis e ter a Dona Mariquita como personagem central do documentário me levaria a este lugar, a esta mulher”, conta a cantora.

O depoimento de Dindinha costurou o roteiro e levou Fabiana a entrevistar também a cantora Elza Soares, Dona Durvalina, amiga de Clara Nunes, o compositor Wilson Moreira, Deli Monteiro, do Jongo da Serrinha, e o primeiro produtor da cantora, Adelzon Alves. O documentário tem duração de 25 minutos e mostra Fabiana Cozza conversando com Dona Mariquita na casa dela, na rua onde Clara Nunes nasceu e na creche tão sonhada pela Guerreira.

Na apuração do curta, a cantora descobriu que Elza Soares foi a primeira artista a acolher Clara Nunes em sua casa e a dar a ela toda a assistência quando chegou ao Rio de Janeiro. E se surpreendeu ao saber que mesmo 30 anos após sua morte a figura da Guerreira ainda impera nos corações de parentes e amigos de Clara.

“Em Caetanópolis entendi o porquê dessa paixão. Todas as pessoas que entrevistei disseram a mesma coisa: Clara era uma pessoa humilde, amorosa, comunicativa e generosa. Mesmo no auge, mantinha a simplicidade da menina que deixou a pequena Caetanópolis pra ganhar o mundo”, lembra.

O resultado é um disco e um DVD sublimes em todos os sentidos. Nas 21 faixas das duas produções, Fabiana Cozza interpreta os mais marcantes sucessos da “tal mineira”, como “Portela na Avenida”, “A Deusa dos Orixás”, “Ijexá”, “O Mar Serenou” e “Juízo Final”.

A escolha do repertório foi uma tarefa árdua, porém prazerosa, segundo revela a sambista. “Foi difícil devido à qualidade e à grande variedade. Essa escolha se deu com a diretora do espetáculo, a atriz Olívia Araújo. Ela desenhou o roteiro comigo. Selecionamos canções em que eu pudesse criar uma assinatura pessoal, respeitando sempre a obra. Por isso, o repertório tem também canções ‘lado B’”, diz a cantora, que traz o show de lançamento do álbum para Belo Horizonte, no início de junho. A última vez que Fabiana Cozza esteve na capital mineira foi em novembro de 2011, no Sesc Palladium, lançando o álbum “Fabiana Cozza”.

Depois disso, ela segue para a Europa para mostrar um novo trabalho, com direção e produção musical de Swami Jr, em fase de pré-produção. Além disso, a artista se envolve na realização de outros três discos.

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