Bate debate 07/03/2014

iG Minas Gerais |

Museu tropical    Luisa  Brabosa Pereira Cientista Social   A autoestima do brasileiro tem aumentado significativamente. Não é preciso ser cientista social para perceber o que até o mercado já descobriu. Valorizam o produto 100% nacional, o verde-amarelo, os símbolos da pátria. Passamos a ter orgulho do Brasil para além do futebol, que acabou, por ironia do destino, sendo objeto de crítica e revolta. Mas, ainda assim, o “complexo de vira-lata” se nega a morrer. Especialmente entre aqueles que fazem de tudo para se distinguir do que se assemelha “á povo”. Eu – brasileira convicta – orgulhosa e apaixonada por minha gente, rejeito esse tipo de complexo e até, num patriotismo burro, me arrisco a defender com unhas e dentes tudo o que parecer “original do Brasil”. Minha recaída, contudo, se dava em um cenário particular. Sempre que visitava os grandes museus do mundo era também vítima do “vira-latismo” que tanto renuncio.   Neste ano, enfim, consegui me libertar do complexo ao visitar o Inhotim. Um museu tropical, diferente de tudo o que já vi e com a cara do Brasil. Sede de uma vasta coleção botânica e dos acervos mais importantes de arte contemporânea. E este não é nem o tipo de expressão que mais me inspira. Ainda assim, me senti leve, entorpecida, do jeito que a arte deve nos abater.   O Instituto é um museu ao ar livre localizado no domínio da Mata Atlântica, em Brumadinho, MG. Foi aberto ao público em 2006 e atualmente possui mais de 450 obras de artistas contemporâneos. Para desfrutar bem do Inhotim é preciso pensar como os mineiros, achar que cada galeria é “logo ali” e não se importar com o sobe e desce das ladeiras. Nesse dia você vai ter o privilegio de ouvir de forma individual e coletiva um coral de 40 vozes, instalação Forty Part Motet da artista J. Cardiff, que conta com 40 caixas de som dispostas em círculo. Cardiff gravou com microfones individuais cada membro do coral da Catedral de Salisbury Cathedral.   Também poderá conhecer Ttéia 1C, de L. Pape, de 2002. Uma “teia graciosa” de fios metalizados que cegam de tanto brilho, numa galeria em meio à mata. E Elevazione, de G. Penone, uma grande castanheira de metal (que não parece de metal) presa ao chão por pés de aço. Ao seu lado estão plantadas outras cinco árvores que, todos nós esperamos, irão crescer e se aproximar da escultura harmonizando um espaço arquitetônico de diálogo entre natureza e arte. Verá a instalação Beam Drop, de C. Burden. Um conjunto de enormes vigas selecionadas em ferros-velhos próximos a Belo Horizonte, que foram fincadas ao chão.   E mais. Saí do Inhotim orgulhosa, achando que tinha descoberto a “jaboticaba brasileira”, original, de sabor marcante e cheiro forte. Com coragem para “enfrentar” os museus do mundo de cabeça erguida e nariz empinado. O museu peca por apenas um erro, quase mortal: proíbe piqueniques e a entrada de alimentos no parque. Uma pena, já que além do cenário nos convidar a isso, as lanchonetes e restaurantes do Inhotim se aproveitam do “estágio nirvana” que os visitantes se encontram para abusar dos preços. Nada é perfeito. Em protesto, nos alimentamos de arte e luz.   Especialmente para Débora Almeida.

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