No caminho de Gabriel

iG Minas Gerais |

Gabriel ia voltar ontem para a escola depois do feriado prolongado. É lá que ele deveria estar. O previsto era que pulasse da cama, animado, como faz todas as manhãs. Não gosta de se atrasar. É um momento novo. Uma etapa diferente. Agora, não vai mais para a creche. É aluno da escola integral. Primeiro ano, com muito orgulho. Esperto para a pouca idade, o garoto se apronta sozinho. Sempre preocupado em não perder a van, que passa por volta das 7h. Só costuma voltar às 18h, ainda animado para contar o que aprendeu e vivenciou ao longo do dia. Mas a criança tranquila e estudiosa, como descrevem familiares e amigos, faltou à aula. A tarefa agora é mais importante: precisa sobreviver. Respira com a ajuda de aparelhos. Apenas 5 anos e já com uma missão tão complexa... Gabriel é nascido e criado no aglomerado da Serra. E, apesar de a família conhecer e conviver com os riscos da violência, nunca pensou que enfrentaria tamanha tragédia. Pai e filhos estavam no lugar errado na hora errada. Pena dizer que esse local é justamente uma das ruas da vila Del Rei, uma das áreas mais movimentadas da comunidade onde vivem. Lá, circulam diariamente milhares de pessoas. Aglomerados como tantos outros espalhados pelo Brasil – cheio de gente de bem convivendo com a violência e as consequências do tráfico. Darlei, Gabriel e Lucas iam para a parte de cima da comunidade. O pai levou os filhos para visitar a bisavó de sua ex-mulher. Ficaram cerca de uma hora, conversaram e fizeram companhia para a senhora de 88 anos. Saíram às 18h sem prever o que estaria por vir. Por sorte, Lucas, de 11 anos, foi mais rápido no pedal e ganhou vantagem em relação à bicicleta do pai. Darlei e Gabriel ficaram para trás. O garoto ia no cano da magrela, uma das coisas que mais gosta de fazer. Foram muitos os passeios assim em dias alegres. Só que a terça-feira foi diferente. Barulho súbito. Gabriel foi atingido na cabeça. O tiro entrou no olho esquerdo e saiu pela nuca. Darlei foi ferido no joelho. Eles simplesmente passam por ali. Mas no meio do caminho tinha uma guerra. Quem brigava? Facções rivais que, segundo a polícia, disputam pontos de droga. Nos últimos tempos, a luta pelo poder no tráfico só aumenta no aglomerado da Serra. O clima é pesado dentro e fora das vilas. A região sempre sofreu com a violência, mas agora é pior, atinge mais e mais inocentes como o pequeno Gabriel. Todos estão assustados. Os moradores da vila não querem comentar a criminalidade. Têm medo. Preferem o silêncio. Os vizinhos, do bairro Serra, também estão inseguros nos seus apartamentos. O barulho dos tiros já não os assusta mais. O pânico agora está em chegar e sair de casa. Todos temem a violência. Mas Darlei a viu de perto e sofre com as consequências dela. Não me encontrei com o pai de Gabriel, mas pude ouvir dele mesmo a própria história. Foi pelo telefone. Poucos minutos. Tempo mais do que suficiente para sentir a dor de um pai. Perceber o quanto será difícil para aquele homem superar o trauma. Não havia onde se esconder, não havia para onde correr. Ele não podia fazer absolutamente nada. Estava impotente. Em seu relato, as balas dos tiros batiam no chão, estourando feito pipocas. “Era o sangue do meu filho, e eu não tinha como protegê-lo”, contou o homem que hoje se recupera do ferimento e reza pela vida do filho, internado em estado grave no pronto-socorro do hospital João XXIII. Gabriel, o pequeno cruzeirense, até o momento em que eu terminava esta coluna, na noite de ontem, seguia lutando para viver. Quer estudar, jogar bola, passear. Quer ter um futuro, mesmo em um Brasil incerto. 

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