A opressão nossa de cada dia levada à cena

Primeira Campainha estreia seu terceiro trabalho levemente inspirado no clássico “O Diário de Anne Frank”

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Opressão. “Diário de Anne Frank” é pretexto para se enveredar por relações de opressores e oprimidos
Tomas Arthuzzi
Opressão. “Diário de Anne Frank” é pretexto para se enveredar por relações de opressores e oprimidos

Falar sobre a perseguição sofrida por judeus durante o período da Segunda Guerra Mundial é algo recorrente e (por que não?) “batido” nas artes. O cinema mesmo já produziu diversos filmes que abordaram a temática vastamente sob diferentes vieses, ao longo de sua história. Ao tomar “O Diário de Anne Frank”, um dos clássicos da literatura no quesito relatos de pessoas perseguidas pelo nazismo, como uma das inspirações para um novo espetáculo, o grupo Primeira Campainha busca falar muito mais das relações de opressão – entre opressores e oprimidos –, do que propriamente das agruras sofridas pela adolescente de 13 anos, Anne Frank, e sua família em “Isso é para Dor”, que estreia hoje, na Sala João Ceschiatti.

“Existem referências claras ao livro. Sons de bombardeio, por exemplo. É uma temática recorrente, mas ela pode ser aplicada a várias esferas. Tentamos utilizar essa história da angústia de alguém escondido, fugindo da perseguição e da caça de outras pessoas que querem matá-la para falar sobre outras relações de opressão de minorias. Mulheres, negros, homossexuais, por exemplo”, garante Marina Arthuzzi, atriz e integrante da Primeira Campainha.

Com humor ácido e fortes referências pop em seus trabalhos anteriores, o grupo buscou não perder sua essência. A dramaturgia “Control C, Control V” dos trabalhos anteriores foi mantida. “As referências às outras coisas como o cinema estão todas lá, mas agora temos uma roupagem mais realista. São nossas personagens fazendo isso e não eu, Marina, falando”, explica Arthuzzi. Pela primeira vez, a dramaturgia e a direção do espetáculo são assinadas por uma pessoa externa. “Eu assisti aos dois trabalhos anteriores das meninas e fiquei muito impressionado. Pensei que gostaria de escrever algo para elas levarem à cena”, destaca Byron O’Neill, diretor e dramaturgo da peça.

Arthuzzi destaca positivamente a parceria com O’Neill: “Tirou a gente de um lugar nosso sem perder nossa identidade. É muito mais complicado, confuso, mas é muito mais maduro, profundo”.

Admirador do trabalho das novas parceiras, o diretor crê que ambos puderam beber do encontro. “É difícil avaliar um trabalho antes que ele estreie e encontre o público, mas eu creio que conseguimos manter nossa essência. É completamente diferente das coisas que a Primeira Campainha já fez e também do que já fiz, mas mantém características de ambos”, destaca o diretor.

AMSTERDÃ. O’Neill tomava uma cerveja com seu amigo, o também ator e diretor Gero Camilo, em São Paulo, quando lhe contou de seus planos. Quando soube do projeto que envolvia “O Diário de Anne Frank”, Camilo – que já havia visitado a capital holandesa por conta de um trabalho inspirado na obra de Van Gogh – aconselhou: “Você precisa ir a Amsterdã!”. Mesmo sem dinheiro para a viagem no projeto, que foi aprovado no Prêmio Estímulo às Artes Cênicas, do Palácio das Artes, O’Neill e as três atrizes partiram para o Velho Continente. Lá, eles conheceram o Anexo Secreto (parte do Museu Anne Frank), onde Anne e sua família ficaram refugiados. “É uma realidade muito triste, posso dizer que nunca me emocionei tanto com um trabalho”, destaca O’Neill.

“Foi importante para o trabalho, ficamos ensaiando lá. Íamos ao museu todos os dias, os funcionários nos reconheciam, nos chamavam de ‘os brasileiros do teatro’. Lá, nós tivemos acesso a um monte de informações que não são dadas aos turistas comuns”, explica Arthuzzi. Serviço. Estreia “Isso é para a Dor”, da Primeira Campainha. Sexta a domingo, até o dia 16 de março. Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 19h, na Sala João Ceschiatti, (av. Afonso Pensa, 1.537, centro). Ingressos: R$ 10 e R$ 5 (meia entrada)

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