A estranha família de Recalque

iG Minas Gerais |

Ilustração: Hélvio
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Os irmãos estão em pé de guerra. Ciúme, Cobiça e Ganância simplesmente não engolem o sucesso repentino de Recalque, o caçula que ninguém dava muita bola e que, de repente, virou o sujeito mais pop do pedaço. A barafunda foi agravada pela superexposição nestes dias de Carnaval. Ainda estão tentando entender como Recalque conseguiu estar em todos os lugares ao mesmo tempo, dos camarotes encharcados de cerveja e famosidades aos lugares mais altos dos carros alegóricos, das despedidas intermináveis no circuito Barra-Ondina ao arrastão amoroso e malemolente da avenida João Pinheiro. A animosidade já tinha cheiro e cor, mas ficou pior quando os irmãos começaram a ser confundidos com o enjeitado. Mulher lelé de ciúme foi chamada de recalcada. Fortão rejeitado justamente por sua cobiça desenfreada foi chamado de recalcado. E todo mundo que queria o que via foi chamado de recalcado, o que Ganância não perdoou. A gota que faltava para escancarar a rusga entre eles. A mãe, dona Inveja, observa, até com certo orgulho, o embate entre a cria. Da sua poltrona na sala, chega a sorrir. Como todas as mães, sabe que a filharada está cumprindo a sina, dando substância à própria natureza, fazendo valer o legado da família. Na verdade, ela sempre achou o caçula o mais parecido com ela. Desde que nasceu, mostrou toda sua vocação para ser traiçoeiro, pérfido, dissimulado e, principalmente, insaciável. O que a afligia é que, apesar de tantos predicados, Recalque nunca conseguiu subir na vida. Sempre ficou enfiado nas comunidades, se sentia muito à vontade na perifa, passava noites e noites saracoteando em bailes funk. Isso deixava dona Inveja frustrada demais. Apesar de manter suas relações sempre na surdina, já que ninguém tinha peito de assumi-la, dona Inveja sempre foi conhecida por ser a mais popular da rua, a que dava bem com pobre e rico, homem e mulher, até criança não resistia a seus apelos. Ter um filho confinado no gueto não fazia bem para sua reputação. Mas aí vieram poderosas e popozudas e criaram um movimento de exaltação do Recalque, que finalmente pôde exibir seu bigode grosso em festa de milionário, com tudo liberado, muito uísque, dez freezer de red bull, muita amarula e muito chandon. Recalque finalmente tinha chegado lá. Mas chega uma hora que mãe cansa de fuzuê dentro de casa. Dona Inveja resolveu publicar uma coluna no jornal esclarecendo as coisas, dando rosto para os nomes de cada filho, atribuindo a cada qual o seu pecado e seu signo: “Ciúme é querer manter o que se tem. Cobiça é querer o que não se tem. Ganância é querer mais, apesar do que se tem. Recalque é botar nos outros a culpa pelo que não se tem. Assinado: Inveja, que é não querer que o outro tenha.” Depois de tudo explicado, Inveja chamou Reclaque para uma conversa. Sem ter certeza se o rebento daria conta da sua condição, disse para ele se acostumar com a ingratidão, que apesar de ele ser íntimo de todo mundo, a tendência é que ele tenha que viver escondido. Pegou um livro que Zuenir Ventura escreveu sobre ela e leu em voz alta uma citação de Nelson Rodrigues: “hácoisas que o sujeito não confessa nem ao padre, nem aopsicanalista, nem ao médium depois de morto”. E completou: “Bem-vindo ao time, meu filho”.

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