O trânsito,a falta de urbanidade e o verdadeiro significado da velhice

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DUKE
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Deixei minha casa, como sempre faço, dirigindo meu automóvel em direção ao meu escritório, no centro da cidade. E, como sempre também faço, com a firme disposição de aprender, dia após dia, a ter mais urbanidade, sobretudo no trânsito, que, por definição, “é ato ou efeito de caminhar; marchar. É ato ou efeito de passar; passagem”. Minha primeira tarefa era deixar minha filha em um consultório médico, situado à avenida Alfredo Balena, para, em seguida, alcançar meu escritório, à rua dos Guajajaras, entre as ruas São Paulo e Curitiba. Localidades, digamos assim, “supimpas”, no que diz respeito, especialmente, ao trânsito e à mobilidade urbana. Em ambas as localidades, como em quase toda a cidade, trânsito, hoje, “é ato ou efeito de não caminhar; não marchar. É ato ou efeito de não passar; sem passagem”. Esse é o retrato da atualidade, embora tenha a mais profunda admiração pelos que se atrevem a governar qualquer cidade. Ao me aproximar do local onde deixei minha filha, reduzi a velocidade do veículo, liguei o alerta, como deve fazer um motorista ajuizado, tais e tantos são os riscos de um acidente grave e talvez fatal, mas nada disso adiantou. Uma jovem, também pilotando seu possante automóvel, irritada, agarrou-se à sua buzina e a disparou. Não satisfeita, ainda me chamou de velho – uma realidade incontrastável. Eu poderia responder à pretensa ofensa – e esse foi meu propósito inicial – com a mesma fineza demonstrada por ela. Poderia dizer-lhe assim: “Sou velho e sei disso há muitos anos. Você, porém, é jovem, mas com o mau humor e a impaciência de velha antipática e, por falta de observação ou de senso comum, não percebe essa realidade – a sua realidade. Esclareço-lhe, todavia, que esse defeito, felizmente, você pode corrigir. Um bom psicólogo e/ou um bom livro de autoajuda lhe bastariam, quem sabe. Mas há outro, incorrigível, que, por amor à verdade, sou forçado a lhe dizer: além de velha, você é também feia”. Com certeza, proferiria a primeira parte da resposta, se não optasse pelo silêncio. A segunda, jamais a externaria. É cruel chamar alguém de feio. Afinal, ninguém tem culpa de ser feio. Além do mais, a feiura verdadeira não é nem comum nem encontradiça. Exige profunda análise do interior (ou da alma) desse ser que nos parece feio. A beleza, sobretudo física, nem sempre é o melhor dos predicados. Segundo o padre e cantor Fábio de Melo, mineiro de Formiga, a velhice tem significado: “Ela nos traz direitos maravilhosos. É o tempo em que vivemos a doce inutilidade. É o momento em que a gente se purifica. Cedo ou tarde, experimentaremos esse território desconcertante da inutilidade, que é o momento natural da vida. Perder a juventude é perder a sua utilidade. E é nesse momento que a gente tem a oportunidade de saber quem nos ama de verdade”. Padre Fábio, diferentemente do grande pensador, político e jurista Norberto Bobbio, um pessimista, para quem “a vida é uma descida em direção a lugar nenhum”, tem o conforto da esperança da vida além da morte. Certa vez, meu amigo Márcio Garcia Vilela, de supetão, me perguntou: “Mas, enfim, há algum encanto na velhice?”. Se há, disse-lhe, não sei dizer, só sei que ela é o único meio para se viver muito. E é, segundo Bobbio, o momento em que se aprende a “respeitar as ideias alheias, a deter-se diante dos segredos de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar”.

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