Analgésicos seriam porta de entrada para outras drogas

Uso de remédios desse tipo alterou o panorama do vício e da recaída

iG Minas Gerais | Benedict Carey |

Ator. Philip Seymour Hoffman, que morreu no mês passado, teria largado a heroína há mais de 20 anos e estaria lutando contra  analgésicos
Jordan Strauss
Ator. Philip Seymour Hoffman, que morreu no mês passado, teria largado a heroína há mais de 20 anos e estaria lutando contra analgésicos

Nova York, EUA. Nos Estados Unidos, a vida do viciado em heroína não é a mesma de 20 anos atrás, e o maior motivo é o que os médicos chamam de “heroína leve”: os opiáceos receitados. Tais medicamentos estão mais disponíveis do que nunca e são seguros para estimular um apetite que, quando formado, nunca desaparece por completo.  

O ator Philip Seymour Hoffman, que foi encontrado morto em seu apartamento em Nova York no dia 2 de fevereiro com uma agulha no braço, morreu de uma overdose acidental de drogas, afirmou o Instituto Médico Legal de Nova York no último dia 28. A causa da morte foi intoxicação aguda por drogas, incluindo heroína, cocaína, benzodiazepínicos e anfetaminas.

Todavia, o caso de Hoffman destaca algumas novas verdades sobre o vício e os vários riscos conhecidos de overdose.

O ator, que teria largado a heroína há mais de 20 anos, estaria lutando para dar um fim ao hábito de usar analgésicos receitados no ano passado. Especialistas em vício dizem que o uso de medicamentos como Vicodin, OxyContin e Oxicodona – todos opiáceos como a heroína – alterou o panorama do vício e da recaída de um jeito que afeta tanto os usuários atuais quanto os antigos.

“O usuário à moda antiga, anterior à década de 90, usava basicamente só heroína, e se não havia nada por perto, passava pela abstinência”, disse Stephen E. Lankenau, sociólogo da Universidade Drexel que pesquisou jovens viciados. Segundo ele, hoje em dia, os “usuários trocam e destrocam, passando para os comprimidos e voltando à heroína quando disponível e vice-versa. As duas opções se integraram”.

A taxa de abuso de opiáceos receitados vem crescendo continuamente desde a década passada, enquanto o número de pessoas relatando que usou heroína nos últimos 12 meses quase dobrou desde 2007, chegando a 620 mil, segundo estatísticas do governo. De acordo com pesquisadores, não se trata de uma coincidência: agora mais pessoas do que nunca experimentem opiáceos em uma idade jovem, e os viciados em recuperação vivem num mundo com muito mais tentações do que a geração passada.

“Dá para conseguir os comprimidos de muitas fontes”, afirmou Traci Rieckmann, pesquisadora de vício da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon. “Não existe parafernália, nem cheiro. É a droga perfeita para muita gente”.

Milhões de pessoas usam esses medicamentos de forma segura, e os médicos costumam receitá-los diligentemente. Porém, para alguns pacientes, os analgésicos receitados podem funcionar como apresentação – ou reintrodução – a um alto opiáceo. Segundo os médicos, os comprimidos desencadeiam o desejo por heroína nos viciados em recuperação, da mesma forma que suavizam a abstinência entre os usuários.

O doutor Jason Jerry, especialista em vício do Centro de Recuperação de Drogas e Álcool da Clínica Cleveland, estima que metade dos 200 e poucos viciados em heroína que a clínica acompanha todo mês começou usando opiáceos receitados. “Muitas vezes é uma receita legítima, mas sem perceber estão comprando remédios ilegalmente”.

Em muitas partes do país, a heroína é mais barata do que os opiáceos receitados. “Então, as pessoas terminam se perguntando: ‘Por que estou pagando US$ 1 por mg de oxi quando por um décimo do preço consigo uma dose equivalente de heroína?’”, explicou Jerry.

Substância

O que é. Opiáceos são derivados do ópio. Eles produzem ações de insensibilidade à dor (analgesia) e são usados principalmente na terapia da dor crônica e da dor aguda de alta intensidade.

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