Irreverência e arte a R$ 1,99

Mostra e leilão do coletivo Piolho Nababo satirizam mercado tradicional e repensam a relação do artista com o capital

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Sem curador. As paredes da galeria foram ocupadas de forma aleatória, com os próprios artistas definindo o espaço que exporiam
Paulo Lacerda - Fundação Clóv
Sem curador. As paredes da galeria foram ocupadas de forma aleatória, com os próprios artistas definindo o espaço que exporiam

O espaço Maris’Stella Tristão, no Palácio das Artes, nunca foi tão irreverente. As paredes e parte do chão da galeria abrigam a exposição “Galeria Piolho Nababo” e será palco, no próximo sábado (8), do “Leilão de Arte Piolho Nababo R$ 1,99”.

Sátira do mercado tradicional de arte e aberta desde o início de fevereiro para qualquer artista que quisesse participar, a exposição começou vazia e gradativamente ocupou as paredes da galeria. Assim, estão expostas de forma aleatória mais de 200 obras, que irão a leilão com lance mínimo de R$ 1,99.

Os trabalhos seguem linguagens muito diversas e passam por diferentes expressões das artes visuais. “Temos muito desenho, pintura, escultura, instalações. São desde as mais tradicionais, obras decorativas, até coisas que dialogam mais com arte contemporânea, crítica política e social”, diz o ator e jornalista Daniel Toledo, que forma o coletivo Piolho Nababo com os artistas Froiid K e Warley Desali.

As origens da exposição e do coletivo remontam ao espaço Ystilingue, no edifício Maletta, que em 2010 tomou ares de galeria informal ao se abrir para qualquer artista interessado em expor. A transição entre o mambembe e espaços alternativos para uma galeria imponente como a do Palácio das Artes se deu a partir do edital de ocupação das galerias. “Na verdade, essa parte foi uma surpresa. Concorremos ao edital sem tanta pretensão, mesmo porque a nossa ideia sempre foi fazer uma coisa muito descontraída, o que contrasta com a sisudez do Palácio. Mas é legal também esse diálogo com as instituições, aos poucos vamos abrindo mais possibilidades para os dois lados”, afirma Toledo.

Segundo ele, a exposição é uma oportunidade para artistas que nunca tiveram acesso a uma galeria mostrarem o trabalho pela primeira vez. “Até as pessoas que trabalham no próprio Palácio como arte-educadores compraram a ideia e trouxeram as obras. Chegaram desde pessoas que expõem na feira hippie até estudantes de belas-artes. E é bom ver tudo isso misturado nas paredes, de uma forma caótica, que não remete em nada à estética de uma galeria tradicional”, avalia o organizador.

Leilão. A segunda parte do projeto é a performance de Toledo, que vai leiloar as obras. Entre 2011 e 2013, outras dez edições do leilão foram montadas em espaços como um brechó, o edifício Maletta e o teatro do grupo Espanca!, o que mostra uma produção profícua dos artistas. “Basta abrir a possibilidade de exposição para descobrir gente produzindo. Sobre esse excesso, ele tem muito a ver com o tempo em que a gente vive, acho. É um excesso de excesso, não só nas artes, mas em todas as partes da vida”, brinca ele.

Do leilão, ele só espera que seja divertido como das outras vezes. “Leilão de arte é um outro mundo, absolutamente inacessível para a maioria das pessoas e dos artistas também. Nunca fui em um sem ser esse que a gente organiza”, ironiza o leiloeiro.

Assim, com humor e improviso, o leilão funciona como um deboche ao mercado tradicional das artes e da relação do dinheiro com os artistas. “É o precário se cercando de pompa. A vida dos artistas, em sua maioria, é de muito trabalho e incertezas, tirando raríssimas e milionárias exceções”.

Se nos outros leilões o tíquete médio das peças ficava entre R$ 50 e R$ 100 (mas algumas saíram por módicos R$ 3), Toledo não sabe o que esperar do preço final no Palácio. “Em uma edição anterior do leilão, contamos com a participação de alguns artistas já mais consolidados e, na plateia, uma curadora do Inhotim levou muita coisa, expondo um pouco esse lado do poder econômico, que é realmente chocante no mercado. Ao mesmo tempo, mostra que há interesse no que é produzido por artistas ainda nada conhecidos. Esse diálogo nos interessa e nos põe para pensar melhor essa situação para todos os lados”, reflete.

Agenda

O QUÊ. Performance “Leilão Piolho Nababo R$ 1,99”

QUANDO. Sábado, dia 8 de março, às 19h

ONDE. Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro)

QUANTO. Entrada franca

De fora

A galeria Maris’Stella Tristão abriga cerca de 100 pessoas, menos do que a quantidade de artistas que já participam da exposição. Para quem ficar de fora, uma estrutura vai ser montada nos jardins do Palácio para a transmissão e participação no leilão

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