Um estudo de personagem

“True Detective” traz um duelo de grandes atuações pouco vistas na TV

iG Minas Gerais | Isis Mota |

Opostos. Policiais de estilos completamente diferentes, eles desvendam um assassinato bizarro
hbo/ divulgação
Opostos. Policiais de estilos completamente diferentes, eles desvendam um assassinato bizarro

“Como é que eu não vi isso antes?” Era só o que eu pensava ao acabar de assistir ao primeiro episódio de “True Detective”, em cartaz nas noites de domingo da HBO. Acostumada a ler elogios rasgados a séries das quais eu não gosto, não dei valor a essa que vem sendo apontada pelos mais entusiastas como “a melhor série da atualidade”.  

Lego engano meu. Um crítico norte-americano escreveu que no futuro, talvez olhemos para “True Detective” como o momento em que a TV a cabo realmente “pegou o jeito”. Certamente, é o mais cinematográfica que a televisão pode ser. A abertura já é uma pequena obra de arte.

Retrata em som e imagens a complexidade do ser humano, a religiosidade, os tabus em torno do que “True Detective” gira. Se a pessoa não sabia o que esperar, a abertura já diz a que veio.

O fato de todos os oito episódios terem sido escritos e dirigidos pelas mesmas pessoas – Nic Pizzolatto e Cary Fukunaga, respectivamente –, ao contrário do que normalmente acontece no mundo das séries, parece ter dado à dupla de atores mais segurança para forçar os limites, além de unificar todos os episódios, que têm o mesmo tom, a mesma cor, a mesma tensão, os mesmos silêncios incômodos.

A investigação de um assassinato e a identidade do “serial killer” nem são o que mais interessa. O embate cotidiano entre os dois protagonistas, que são parceiros na polícia de uma pequena cidade no Estado da Louisiana, é o fio condutor.

De um lado, Rustin Cohle (Mathew McConaughey), um lobo solitário assombrado pela morte de sua filhinha, destruído por anos infiltrado em quadrilhas de traficantes, e capaz de discutir o continuum espaço-tempo e a existência ou não de Deus como quem especula se hoje vai chover.

Ao seu lado está Martin Hart (Woody Harrelson), o típico pai de família machão, que prega moral mas não consegue resistir aos excessos no álcool e no sexo com garotas mais novas que sua mulher. Nunca se deram bem, não podiam ser mais diferentes. Prato cheio para os atores, presente para quem assiste.

A história começa em 1995, quando Rust, recém-chegado à região, e Martin investigam juntos o assassinato de uma jovem, cuja morte parece ligada a cultos religiosos. Ao mesmo tempo, vemos os dois 17 anos depois – Martin careca e mais gordo, Rust cabeludo e mais louco do que nunca – sendo entrevistados por dois policiais que, ao investigar uma morte atual, resolvem puxar os nós ainda amarrados do velho caso da dupla. O último episódio, que promete a solução de todos os mistérios, será exibido simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos neste domingo.

Atores. A interpretação de Woody Harrelson e Mathew McConaughey nos poupa das caras e bocas tão clichês nos programas de televisão. É cheia de entrelinhas, de subtextos, o espectador quase enxerga as “engrenagens” dos cérebros deles se movendo. No caso de McConaughey, especificamente, são praticamente dois personagens distintos, ele em 1995 e em 2012.

As cenas que se passam no tempo presente são praticamente tomadas fechadas no rosto dos personagens sentados numa sala. Nelas, McConaughey faz mais fumando na cara dos dois interrogadores da polícia do que muitos atores num filme inteiro.

O cigarro, aliás, é o coadjuvante mais impressionante. O Rustin Cohle de McConaughey fuma em cena o tempo todo, e cada trago vem carregado de intenção, marca mais um pedacinho da história dos últimos 17 anos que ele vai entregando a quem escuta. Chega a ser nauseante de se ver, deve dar coceira em ex-fumantes na audiência, mas é um deleite ver como uma baforada de fumaça pode ser uma agressão ou uma ironia revelada ao público por um bom ator.

Para ver

“True Detective” estreou simultaneamente nos Estados Unidos e no Brasil no dia 13 de janeiro. A HBO exibe a atração às segundas, 00h, com horários alternativos. Acesse http://www.hbomax.tv/

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