Meu pai - uma lição

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Na próxima semana, meu pai completará 85 anos, oito deles vividos sobre uma cama e uma cadeira de rodas, alimentando-se por meio de sonda e, com dificuldade, movimentando-se com o apoio de zelosas enfermeiras e fisioterapeuta – seus anjos da guarda. Há oito anos ele deixou de falar, nunca mais ouvi sua voz carregada de sábios conselhos, embora o raciocínio, apesar da idade que avança, continue perfeito. Impressiona-me sua serenidade em momentos tão difíceis e penosos. Volto no tempo e lembro-me dos meses que passamos numa UTI, após ele sofrer o AVC. Entre fios, tubos e barulhinhos persistentes dos aparelhos, procurava lhe trazer um pouco de conforto, de histórias alegres, de casos do dia a dia, como os do filhote de vira-lata que as meninas levaram pra casa, do jornal “Super Notícia”, que estava vendendo a rodo, da formatura dos netos, do quarto que estávamos pintando para o dia do seu retorno. Não procurava criar expectativas, apenas transmitir a esperança que carregava em mim. Minha mãe me acompanhava, assim como há 58 anos vem acompanhando o meu pai. Chegava de maneira positiva, contando notícias boas que pescava por aí, às vezes exagerava um pouco, já que notícias boas eram raras. Colocava minhas mãos na sua testa, para ver se havia febre, e logo depois as repousava na sua. E ficávamos assim, em silêncio, nos comunicando com a universal linguagem do amor, aquela que dispensa palavras. E volto ao dia do meu nascimento, quando meu pai, emocionado, gritava pelos corredores: “Menina! É uma menina!”. Depois de três homens, era o que ele mais queria. O tempo passou. Há muito, deixei de ser a garotinha de botinas pretas e vestidos curtos, que se escondia atrás das portas ao escutar o barulho do carro na garagem. E, ao vê-lo entrar, atirava-me em seus braços. Presenteava-me com bichinhos coloridos, panelinhas de plástico, chocolates... Um universo de coisas simples, pequenas, valiosíssimas aos olhos de uma menina. E nada mais precioso do que histórias contadas sob a lua, no gramado de nossa casa. Meu aniversário. E o melhor presente. Uma cachorrinha branca de nome Marilu. Conhecia meus horários, assim como os do meu pai. E, na garagem, feito eu, esperava-o chegar do trabalho. Um dia, Marilu se foi, levada pelo peso da idade. E, pouco tempo depois, fui eu, com 24 anos, quando me casei. A casa ficou vazia, e sei que, naquele dia, ele também chorou. E me voltam à lembrança nossas conversas tranquilas, ponderadas. Lições de vida pautadas na integridade. Lições que guardo como joia rara. Depois, a chegada das netas, a casa cheia nos fins de semana. O almoço das sextas-feiras e o armário repleto de biscoitos e bombons – segredo inviolável das netas com seu “vô”. Tudo que em minha casa eu tentava proibir era permitido ali. O tempo passou, as netas cresceram. Vieram as provações, delas ninguém está livre. Com elas crescemos espiritualmente e passamos a compreender um pouco mais sobre os mistérios de nossa existência. Impressiona-me a aceitação com sua nova vida, sua tranquilidade é tanta que minha mãe, ao vê-lo assim, diz que espíritos de luz o acompanham. Antes do AVC, meu pai tinha pânico de doenças e não gostava de depender de ninguém. Hoje, ao seu lado, enfermeiras queridas se revezam, verdadeiros anjos, presentes no seu dia a dia. A elas, seu olhar carinhoso, a melhor forma que encontrou para retribuir tamanha dedicação. Ao vê-lo dormindo vejo serenidade em sua face. Por estar em paz e aceitar com tranquilidade as tantas adversidades, traz paz e equilíbrio à nossa casa. E assim, com coragem, ele vive. Suas lições continuam: perseverança, humildade, paciência, resignação. Nenhum tipo de reclamação... Ele, o meu pai querido, a quem devo minha vida, minha formação e minha mais profunda gratidão. Parabéns, pai, nos orgulhamos muito de você!!!

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