Convidada de honra

Festival Internacional de Quadrinhos começa hoje em BH, se sagrando novamente como o maior evento dedicado à nona arte e com uma bela homenagem a Laerte

iG Minas Gerais | Liliane Pelegrini |

Carlos Cecconello/Folhapress
Ryot e Lipão ministram hoje uma das oficinas que inauguram o FIQ
Laerte está constrangida. Constrangida, não: constrangidíssima. Havia já alguns anos que o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), o maior evento do gênero, queria homenageá-la em uma de suas edições – desde 2009, pelo menos. Agora, nesta de 2013, que começa hoje, na Serraria Souza Pinto, a vontade vira realidade. O festival vai abrigar uma grande mostra, interativa, cheia de jogos e imagens, sob curadoria de seu filho, o também quadrinista Rafael Coutinho, e Laerte estará aqui no domingo, para um bate-papo mediado com o público. A homenagem é mais do que justificada: são pelo menos 40 anos dedicados aos quadrinhos, um sem número de personagens que povoam o imaginário dos leitores, prêmios, livros... Ainda assim, Laerte não entende muito bem ser motivo de uma homenagem. “Eu tenho uma autoavaliação não muito generosa. Tenho sido meio crítica em relação ao meu trabalho. Não sou uma pessoa satisfeita com o que faço, embora goste”, comenta, pausadamente, parando para pensar e escolher as palavras. “Mas claro que eu fico feliz, muito feliz. Em nenhum momento desconsidero a importância disso”, sublinha. Laerte brinca que talvez precise de terapia, por conta dessa autocrítica que lhe faz companhia constante. “Lembro de ter em relação ao meu trabalho uma certa impaciência, uma certa inquietação. Depois que termino uma história, não fico querendo ver como ficou. Me dá até uma angústia, sei lá, um receio de descobrir coisas que eu não queria. Pode ser um modo deformado meu de ver. Todo trabalho tem aspectos criticáveis e importantes, talvez eu esteja vendo mais aspectos que me dão angústia. Talvez eu seja uma doente mental ou talvez precise de terapia”, diverte-se. “Mas é bom que fique claro que essa consciência crítica convive com uma consciência maior. Eu sei o que o meu trabalho significa e a importância relativa que ele tem dentro de um contexto. Não sou alheia a isso”, diz. Essa consciência maior move Laerte não só nos seus quadrinhos. Desde 2010, adotou um novo modo de se posicionar no mundo: virou adepta do crossdressing, ou seja, deixou para trás o guarda-roupa do Laerte e fez surgir a Laerte, passando a se vestir com roupas que o código social convencionou a classificar como “de mulher” – aliás, cabe explicar que os artigos e adjetivos femininos referindo-se a Laerte que aparecem aqui simplesmente honram o modo como ela se autorrefere. Sem padrões. Agora, ela acaba de ser fotografada por J.R. Duran, talvez o fotógrafo mais requisitado pelas famosas e autor de fotografias de tantas “musas” que estampam as “Playboy” da vida, para um ensaio que diz respeito a outra homenagem que receberá em São Paulo, na Balada Literária. “Eu propus que autores e autoras fossem fotografados como um questionamento aos modos de gênero. Alguns, como o Paulo Lins, toparam na hora, com entusiasmo. Outros, toparam com menos entusiasmo e outros nem toparam”, conta ela, para comentar que sua postura tem muito a ver com um questionamento permanente de “padrões”. “Além dos modelos de gênero, tem também os modelos estéticos. Quem disse que essa beleza que é vendida e comercializada na publicidade é a beleza assim? Esses padrões são produtos de uma ‘violentação’ da naturalidade muito grande, muito grande. É uma espécie de tortura permanente”, opina ela. “Perceber o que há por trás disso, que é vender uma ilusão, é mais do que triste. É ‘emputecedor’”, dispara. Preparado. Laerte diz que vem preparado para Belo Horizonte para quaisquer questionamentos. “Às vezes falam mais da questão do meu trabalho. Às vezes, mais sobre a questão de gênero. Não tenho nenhum tipo de frustração quando insistem nessa última. Na verdade, se perguntam é porque, de alguma forma, está gerando uma reflexão. Não tenho dificuldades quanto a isso”, afirma. Dificuldade mesmo é só viajar e deixar para trás Felina e Muriel, suas gatas e – por que não? – musas.

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