Ao mesmo tempo luz e mistério

Beto Guedes faz show hoje à noite no Teatro Bradesco, onde lança songbook com partituras e cifras de suas canções

iG Minas Gerais | THIAGO PEREIRA |

DANIEL DE CERQUEIRA 06-07-2004
Fase. Beto Guedes admite estar vivendo uma época pouco produtiva de criação, sem compor novas canções. A estrada segue sendo seu foco, já que tem se apresentado frequentemente Brasil afora
Talvez possa se dizer que Beto Guedes seja a face oculta – ou pelo menos o personagem mais tímido – da geração do Clube da Esquina. Conversar com o músico, autor de inúmeros clássicos da música mineira, é tentar transpor a barreira que seu natural recolhimento nos coloca. E, claro, é também recolher silêncios, pausas, dúvidas, e muitas, muitas reticências. Ele garante que não tem problemas em dar entrevistas: “Não, acho normal. A gente está na estrada há tanto tempo que, sei lá. Assim, nosso trabalho é tocar né? E tocar direito. Mas tem esse lado, de dar notícias para a galera”. E a notícia que ele dá aos amigos, aos fãs, a todos é que, hoje, sobe ao palco do Teatro Bradesco para lançar o “Songbook Beto Guedes”. “É um trabalho legal né? Eu já tinha feito um antes, mas ele era um pouco tímido”, diz, em trocadilho absolutamente involuntário. “Aí o pessoal da Ultra Música me perguntou do interesse, e eu topei. Esse aí completa o outro”, diz. “Tirar música de ouvido é um trem meio chato, as canções são meio rebuscadas. Ficar escutando no disco, às vezes não se escuta direito, um instrumento soma com o outro. Com o livro é fácil as pessoas consultarem”, afirma. Mas, o próprio Beto assume, não é algo que sirva a ele (“Tiro tudo de ouvido ainda, não leio cifra, até hoje não dei uma estudada”), um senhor (62 anos completos em agosto) que conserva hábitos e gostos antigos. Um deles é a fissura por um som de qualidade, o que até hoje o preocupa antes de subir aos palcos. “Tem melhorado, a história de som no Brasil é complicada, às vezes fazemos um negócio que deixa a desejar um pouquinho”, assume e reclama ao mesmo tempo. Sobre novos músicos, admite que pouco acompanha, e o que tem contato, o deixa um pouco estranhado. O artesão de algumas das mais belas melodias do cânone nacional – algumas genialmente tortas, diga-se (“Amor de Índio”, “Luz e Mistério”, “Tanto”, “Caso Você Queria Saber”, a lista é longa) anda meio desligado. “Tenho visto pouca coisa, tento dar uma olhada nesse rock mineiro. Mas é muita coisa esquisita. Sei lá cara, harmonia, melodia, tudo meio fora, não soa direito. Não sei, pega Bach, música de 200 anos atrás, com uma qualidade lógica esplêndida. Hoje você vê coisas ilógicas”. Outro hábito, meio mitológico, para o bem e para o mal, ele assume estar diminuindo. “Tenho saído menos, saído pouco. Essa história de ir pra bar... Os anos vão passando e vamos ficando meio fracos para aguentar”. Caso você queira saber, Beto garante estar se cuidando. Nada na gaveta. Outra preocupação de quem gosta do músico é saber se, algum dia, ele volta aos estúdios para parir um disco de inéditas. Mas quem espera isso desde 2004, ano em que lançou “Em Algum Lugar”, não precisa criar maiores expectativas. “Não tenho parado para fazer música nova não”, revela. “Mas é aquela história, assim que termina um (disco), fica faltando outro, o próximo, para o público, para a gente”, revela. Não sabe explicar o porquê dessa escassez de inspiração, garante que queria ter uma produção autoral mais frequente, mas que “tá meio complicado, o mercado está meio esquisito”. Bem, isso está mesmo. Um recurso muito usado por artistas veteranos atualmente é rememorar, no palco, suas glórias passadas, em versão completa, apresentando discos clássicos na íntegra. Beto tem boas opções no currículo: não faltaria audiência para shows exclusivos de discos como o belo “A Página do Relâmpago Elétrico” (1977) ou o caminhão de hits concentrado em “Amor de Índio” (1978). Mas o responsável por estas obras não se sente muito atraído pela ideia. “Acho que já tentei fazer isso”, rememora. “Mas não dá, as pessoas começam a pedir outros hits, a música que elas querem ouvir de outros discos...Tem que ir mais ou menos pelo hit mesmo, pelo tradicional, o que mais bateu. Acho que não dá certo, não faria isso”. São estas favoritas do público que estão no set list de hoje à noite, portanto. Por hora, Beto segue em casa, arranhando sua atual companheira favorita de vez em quando, a guitarra. “É engraçado, eu custei a pegar numa. No início era só violão, ficava tirando aqueles solos do Hendrix lá mesmo”, se diverte. Mas à luthieria, paixão que passou ao filho Gabriel (assim como a aviação), não se dedica mais. O que segue cultivando é um certo mistério. “Não sou um camarada que sai falando muito. Nem ao vivo eu tenho isso, de ficar pedindo para o povo cantar letra de música, isso tem muito no samba”, se diverte. “O que tenho que falar está ali, na letra da musica”, conclui. Agenda O QUÊ. Beto Guedes QUANDO. Hoje, às 21h ONDE. Teatro Bradesco (rua da Bahia, 2.244 – Lourdes) QUANTO. R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada)

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