“Road book” experimental

Projeto Sempre Um Papo traz hoje a escritora gaúcha Verônica Stigger, que está lançando seu primeiro romance

iG Minas Gerais | THIAGO PEREIRA |

RENATO PARADA/Divulgação
Linguagem. Escritora utiliza diversas formas literárias em sua produção, e leva isso para seu primeiro romance “Opisanie Swiata”
Há algum tempo, uma senhora, acompanhada de um cachorrinho, adentrou a Livraria da Vila, no literário bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Revoltada, aos berros, ela reclamava de um livro que teria comprado e que, definitivamente, “não era literatura”. Queria porque queria o contato da responsável, o telefone da escritora, batia com o livro na mesa, fazia escândalo. O livro em questão era “Os Anões” da escritora, crítica de arte e professora universitária Verônica Stigger e é ela quem nos conta, às gargalhadas, essa história. O episódio foi narrado pela telefonista do estabelecimento, depois de uma prosaica encomenda que Stigger queria fazer. “Gosto de brincar dizendo que esta senhora entendeu perfeitamente a obra”, diz. “A reação que busco é também essa”. Possivelmente sua nova obra, “Opisanie Swiata”, que a escritora lança hoje no projeto Sempre Um Papo, causaria na senhora semelhante revolta. Tudo certo para Stigger, que considerou o episódio “uma grande alegria”. “Não abandonei nesse trabalho minha vontade de experimentar”, garante. “Eu gosto de testar os limites da literatura, acho este o caminho sempre mais interessante”. Não é coincidência, portanto, que o trabalho venha sendo comparado a outros desconstrutores do texto, como o Paulo Leminski de “Cacatau” (embora ela afirme não conhecer esta obra especificamente) e José Agrippino de Paula de “PanAmérica”. “Os escritores, os artistas plásticos que eu admiro são aqueles que justamente forçam os limites, colocam em xeque suas possibilidades, pensam até onde podem ir”, revela. “Opisanie Swiata” é o primeiro romance da gaúcha, depois de uma série de experiências literárias em outros formatos. “Em meus livros anteriores trabalhei com diversas formas literárias. Tenho vários contos, peça de teatro, roteiros de cinema, poemas, palestras”, elenca. “A única que eu não tinha experiência completa era o romance, daí veio o trabalho”, diz. A ideia para a obra veio de pesquisas recentes em que autora estava debruçada. Diante dos estudos das gravuras de um artista polonês, Roman Opalka, e de um trabalho de curadoria a respeito das obras da artista plástica amazonense Maria Martins, o marido de Stigger, o crítico de arte Eduardo Sterzi, sugeriu que ela ligasse os dois pontos. “Ele disse: ‘Porque tu não escreve um romance que começa na Polônia e termina na Amazônia?’ e esse foi o ponto inicial do romance”. A história central do livro é a de Opalka, um polonês de cerca de 60 anos, que, em sua terra natal, recebe uma carta por meio da qual descobre que tem um filho no Brasil – mais especificamente, na Amazônia – e que este está internado num hospital em estado grave. Ele decide, então, viajar ao encontro do filho. No início do percurso, conhece Bopp, um turista brasileiro que, ao tomar conhecimento das razões da viagem de Opalka, decide abandonar seu giro pela Europa para acompanhá-lo ao Brasil. As referências ao gravurista polonês e ao escritor brasileiro modernista Raul Bopp não são gratuitas, como ela diz. “Quem conhece o trabalho dos dois irá pescar referências, algumas ipsis litteris, vai se divertir, é um jogo”, garante. “Mas mesmo que o leitor não tenha a mínima ideia de quem são eles, ele pode ler sem problemas, eles não influenciam no enredo, é mais um jogo entre forma e conteúdo. No final, trata-se de uma história de amizade”, argumenta. Agenda O QUÊ. Sempre Um Papo com Verônica Stigger QUANDO. Hoje, às 19h30 ONDE. Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro) QUANTO . Entrada gratuita   Road Book Segundo Verônica, o romance foi muito pautado na ideia de uma diário de viagem. “O nome do livro, ‘Opisanie Swiata’, é a forma que os poloneses traduziam o livro de Marco Polo. A história é muito centrada em deslocamentos, trajetos”, justifica.

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