Instituto Royal: sociedade em transição

iG Minas Gerais |

O mês de outubro foi o equivalente da Primavera Árabe para os animais no Brasil, com a ocupação do Instituto Royal em São Roque, interior de São Paulo. Por causa de denúncias contra o Instituto, algumas mulheres resolveram se acorrentar aos seus portões. Na quinta-feira, dia 17, um grupo de ativistas seguiu para o Instituto para uma suposta reunião, que na verdade não era intenção dos diretores do Instituto fazer. Relatos de gritos de animais foram publicados no Facebook, atraindo dezenas de pessoas no local, inclusive black blocs. O local foi invadido. No outro dia um furor midiático começou. Imagens de beagles enfraquecidos, sendo carregados para fora do local, ressonaram com o público. Nos dias seguintes, o assunto dominou a pauta dos principais veículos de comunicação do país, até mesmo o Jornal Nacional. Uma semana depois, graças ao trabalho de ativistas que voltaram ao local, a prefeitura de São Roque suspendeu o alvará de licença do Instituto por 60 dias. Na quarta feira, 06 de novembro, o Instituto anunciou que fechará definitivamente, mostrando mais uma vez que ativismo funciona. O Ministério Público disse que a retirada dos animais atrapalhou seu trabalho, já que o local estava sob investigação. Mas o que o MP tinha feito no último ano desde que a investigação começou? O CONCEA (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal), que em teoria fiscaliza o uso de animais em laboratório, depois do incidente admitiu que 52% das instituições que usam animais em pesquisa estão irregulares. Mas se a invasão não houvesse ocorrido, nada teria sido feito? Talvez, mais importante do que denunciar o óbvio, que é a inoperância de órgãos de fiscalização e ética no Brasil, é trazer à tona os marcadores sociais que esse movimento realçou. E ficou claro que uma parte significante da população não quer mais testes com animais, seja para cosméticos e produtos de limpeza (já proibidos na Europa) ou em qualquer tipo de pesquisa. A indústria, claro, rebate com chantagens emocionais, dizendo que sem testes várias medicações não teriam sido criadas. Mas não poderia ter sido diferente porque os testes são padrão, então, obviamente, a maioria das medicações tem histórico de testes. Quando os testes foram introduzidos sistematicamente no século XIX, a ciência simplesmente considerava animais como objetos descartáveis. Os tempos mudaram, e a própria ciência descobriu mais sobre a senciência animal, sua capacidade de sofrer e seu desejo de bem-estar, como qualquer ser humano. A ciência abraçou a vanguarda da tecnologia, mas se manteve obsoleta em sua relação com animais. Pergunto: abolir o uso de animais não deveria ter sido prioridade absoluta? Um outro marcador revelado por esse episódio é a falta de credibilidade da indústria farmacêutica, que domina o sistema oficial de saúde e para quem os testes são feitos. Cresce a desconfiança dessa indústria monopolizadora, cuja imagem é marcada por ganância e falta de transparência. O debate sobre o uso de cobaias é, fundamentalmente, filosófico e ético, e não científico. A ciência não existe em um vácuo. O século XXI é o século dos animais, e a ciência e outras disciplinas vão ter que se adaptar a isso. Independente da opinião que se tem sobre o tema, o fato é que estamos vivendo uma mudança paradigmática, estamos debatendo, entrando em conflito. Isso é saudável. O resultado será positivo porque é com conflitos de ideias que evoluímos. E evoluir, neste caso, significa por um fim à prática de submeter seres vivos involuntários a testes que resultam em dor e morte. Lobo Pasolini é jornalista, blogueiro e videomaker. Ele escreve sobre energia renovável e questões verdes para www.energyrefuge.com e www.energiapositiva.info. Pasolini divide este espaço com Jack Bianchi, Ludmila Azevedo, Mariana Rodrigues e Silvana Holzmeister.

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