Hipocondria nada! É ansiedade generalizada

iG Minas Gerais |

Figura temida pelos médicos, horror para os familiares próximos, prejuízo certo para os convênios, ninguém tem sido secularmente tão incompreendido, maltratado, injustiçado quanto o hipocondríaco. Motivo de chacotas e piadas, reclamões e consumidores de remédios e exames buscam ouvir que têm algo grave ao mesmo tempo que temem palavras como câncer, doença incurável e imaginam que algum médico digam que têm pouco tempo de vida. A verdade é que não vivem, apenas sobrevivem a cada dia escravos de medos, sequestrados pelo pânico diário de adoecer ou vítima de dores e incômodos que os exames cismam em dar resultados negativos. Ciganos de consultórios, vão de especialidade em especialidade desejando ardentemente que alguém os compreenda e os !cure de dores que migram pelo seus corpos, e ninguém descobre o que é”. Aqui vai mais que um alento, uma esperança e alerta para todos os médicos e profissionais da saúde: fora os pacientes que buscam ganhos secundários, como afastamentos médicos e aposentadorias falsas, em geral, todos os que buscam um serviço de saúde têm sim um sofrimento físico, psíquico, espiritual! E para quem se dispõe a ser realmente um ajudador, um curador, humanista e caridoso, vale uma constatação da filosofia quântica: “pensar equivale a agir”. Acreditem na dor de seu semelhante, ainda que não haja uma base biológica, uma lesão, um exame alterado. Dor, creia, dói. Para provar essa tese, me basearei em fatos históricos e na minha experiência pessoal. Começo nos fins dos anos 70, quando era voluntário do HPS, onde dava plantões aos sábados e me chamava a atenção pacientes que frequentavam o pronto-socorro achando que iam morrer, que estavam com pressão alta, coração disparado, falta de ar, sensação de desmaio, medo de morrer ou enlouquecer, entre outros sintomas. Fazíamos exames e sempre davam negativos, mas virava e mexia e eles voltavam. Eram chamados de “pitizentos”, hipocondríacos, entre outras gozações. Pois bem, não demorou e foi descrito nos EUA nessa época uma disfunção chamada Síndrome do Pânico. Mal que hoje atinge de 8% a 15% da população, conforme os estudos, e ainda é muito mal diagnosticada e pessimamente tratada, pois grande parte procura médicos não psiquiátras, sem treinamento para lidar com disfunções psíquicas, que são cada vez mais comuns nos consultórios e serviço de atenção primária de saúde, como os PSF ou postos de saúde. Mas, meus caros hipocondríacos, vou mais longe na defesa de vocês, pois hoje sabemos que graças ao estresse que enfrentamos no trabalho, em casa, no trânsito, a falta de sono decente, a ausência de exércitos físicos diários, ao nos endividarmos, bem como ao nos defrontarmos com as deterioração das relações afetivas e familiares, enfim sob a pressão constante dos tempos atuais, uma área do cérebro, chamada Sistema Límbico, está cada vez mais sobrecarregada. Sendo ela a responsável pela administração das emoções e estresse, entra em colapso! De tanto disparar o pensamento (“Síndrome da Pensação”), o coitado do cérebro sobrecarregado se inunda de ondas rápidas bioelétricas – chamadas ondas beta –, agitando as trocas de neurotransmissores e, tal qual um alarme de automóvel que dispara sem necessidade, um SOS percorre todos os órgãos com aumento de adrenalina. O Sistema Nervoso Autônomo aumenta os batimentos cardíacos, a respiração dispara, a pressão arterial sobe, como se houvesse um perigo de morte, que modifica nosso corpo. Tal qual o exemplo dado, quando chegamos na rua, nosso carro (ou corpo) na verdade está ali e o alarme é que disparou sozinho. Em outras palavras e usando desta analogia, quando nos preocupamos ou sofremos por antecipação, esses pensamentos falsos e danosos, essa “pensação” faz disparar o Sistema Límbico, criando um estresse e emoções ruins, de perigo imaginário que mexe com todo o organismo e o sobrecarrega. Vamos dar um exemplo. Só de temer os trombadinhas, o medo de que algo aconteça com filhos ou familiares, o temor de perder um emprego ou não pagar uma prestação, enfim, quando nossa mente se torna mais e mais agitada e hiperativa, vamos cronificando um estado estressante inviável. O que o cérebro faz? Emite um SOS em forma de sintomas físicos inespecíficos, que vão desde dor de cabeça, taquicardia, dor no peito, falta de ar, dor no corpo, diarréia, bola na garganta, até perda de cabelo, lesões dermatológicas, insônia, cansaço ao acordar,pernas pesadas e por aí vai. Com isso, 83% de exames dão normais, 65% de cirurgias desnescessárias, segundo estudos americanos. Conclusão: de médico, louco e hipodríaco todos temos um pouco! Mas hoje finalmente (e procurem no Dr. Google ) existe um diagnóstico para os ex- hipocondríacos, o Transtorno de Ansiedade Generalizada. Ah! Para melhorar essa história, finalmente, vale dizer que há uma alteração que não aparece nos exames, que é uma psicogênica, ou alteração de Serotonina, perfeitamente tratável com antidepressivos. Aleluia!

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