Facebook viabiliza trabalho de benzedeira em shopping

Tradição popular sobrevive em meio à modernidade da região Centro-Sul de Belo Horizonte

iG Minas Gerais | Natália Oliveira |

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Com sotaque marcante e um terço nas mãos. É assim que a portuguesa Virgínia Formoso, 88, exprime sua fé na tradição de se benzer para se curar da erisipela, infecção que causa feridas na pele e atingiu suas pernas. “Se não fizer bem, mal também não faz”. Virgínia ouviu essas palavras de uma tia, quando ainda era criança e morava em Paredes da Beira, no norte de Portugal. A frase era a explicação para se valer de benzedeiras e obter diversas curas. Agora, ela se apropria dos ensinamentos da tia, mas tem dificuldades em encontrar quem cumpra a prática. A alguns quarteirões da casa da portuguesa, está a baiana Maria José Limaa, 45, uma benzedeira que foge aos padrões tradicionais e benze em um lugar inusitado. Longe dos quintais simples, ela dá a bênção em uma sala no shopping 5ª Avenida, no coração da Savassi, área nobre da cidade. A porta da sala não tem nenhuma identificação. Do lado de dentro, há imagens de deuses do candomblé, arruda, alecrim e pétalas de rosas vermelhas. Cadeiras e sofás brancos acomodam quem procura se livrar de males e de doenças que, segundo a tradição popular, só têm cura benzendo. Foi a saga para encontrar uma benzedeira e a facilidade da bênção dada em um shopping que fez com que as histórias da portuguesa e da baiana se cruzassem em Belo Horizonte. Isso aconteceu depois que a filha de Virgínia, Lúcia Formoso, 52, postou na rede social Facebook que precisava de uma benzedeira. “Em poucas horas, me responderam que havia uma no 5ª Avenida. No começo fiquei receosa, mas precisava levar minha mãe e então arrisquei, telefonei e marquei o horário. Hoje não estamos mais achando benzedeiras nas grandes cidades”, ressalta. Maria José foi aprovada por mãe e filha. “As feridas estão se fechando, e eu gostei muito da reza dessa moça”, conta a idosa. É com um vestido branco, simplicidade e muita simpatia que a benzedeira, que já está no shopping há dez anos, recebe seus clientes. “Eu atendo em média quatro pessoas por dia aqui”, conta Maria José. Ela não cobra para dar a bênção e mantém o local com jogo de búzios e outros trabalhos, como a numerologia para empresas. “Benzer é fazer o bem e tornar a pessoa mais leve. Eu aprendi a fazer isso de graça e mantenho a tradição”, pondera. Maria José explica que a maioria das pessoas que ela atende no local mora nas proximidades do shopping, caso também da portuguesa. “Eu recebo todo tipo de pessoas, políticos, cantores, atrizes e até mesmo gente que mora em outros países”, declarou. Extinção. A busca desesperada por uma benzedeira no Facebook e a bênção inusitada em um shopping são o retrato de que a tradição das benzedeiras está cada vez mais reduzida em Minas Gerais. Professora de citoterapia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maria das Graças Lins observou a redução de 70% das benzedeiras em 2013 em relação a 2003. A conclusão é fruto de um trabalho que ela desenvolve em cidades que permeiam a Estrada Real. Para a especialista, a medicina convencional é um dos principais motivos para essa diminuição. “Os jovens não se interessam pela crença, que corre o risco de desaparecer”, conclui a professora.

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