Dando uma mãozinha

Homens e mulheres buscam ferramentas para facilitar a vida na hora da paquera

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

Agência UAI/divulgação
Júnior e Luciana celebram vinda dele de SP para BH: relação começou com um elogio no Fotolog
Recém-solteiro, o estudante Lúcio Ferreira (nome fictício), 28, encontrou num aplicativo para smartphone uma ferramenta eficiente para conhecer pessoas. Desde que instalou o Tinder em seu telefone há dois meses já foi a oito encontros. Criado há pouco mais de um ano pelos norte-americanos Justin Mateen e Sean Rad e no Brasil desde agosto, o Tinder, disponível gratuitamente para smartphones com sistemas operacionais iOS (Apple) e Android (Google), é uma “febre” no Brasil. Seu crescimento é maior que 140% ao mês no país, segundo um de seus cofundadores. O app resgata a tradicional missão de facilitar encontros amorosos. Nele é possível encontrar um novo amor a partir de um perfil no Facebook, que deve ser conectado ao app. Ao aderir, o usuário escolhe o gênero (masculino ou feminino), idade (acima de 18 anos) e possíveis pretendentes a uma distância de até 100 quilômetros. Em meio a histórias mediadas por correio elegante, Disque Amizade, salas de bate-papo e redes sociais, o Pampulha buscou entender o sucesso dessas artimanhas que auxiliam na árdua tarefa de encontrar um amor – ainda que só por uma noite. Segundo o psicólogo e professor da UFMG, Cláudio Paixão, quando recorrem a esses subterfúgios, as pessoas se revestem de uma espécie de névoa que as protege de lidar com alguns aspectos da paquera que podem ser desagradáveis. “Assim elas não precisam olhar o outro no rosto e ver reações que podem ser desagradáveis, inadequadas, coisas que vão deixá-las inseguras”, acrescenta. Primórdios Não é de hoje que o telefone tem sido um instrumento eficiente de paquera com discrição e privacidade. Quem não se lembra do 145, também conhecido como Disque Amizade? Em meados da década de 70, no mundo ainda sem internet, o círculo de amizades era composto basicamente por parentes, vizinhos e amigos da escola. O 145 surgiu como uma possibilidade de conhecer pessoas. Quem discava esse número tinha acesso a uma “linha cruzada” que possibilitava a conversa entre dois ou mais interlocutores e, quem sabe, estreitar relações com quem parece mais interessante. “Havia gente que ligava só para fazer amizade mesmo, mas eu tinha a esperança de encontrar um namoro, por conta das dificuldades que vinha tendo com as abordagens presenciais”, conta o engenheiro Paulo (nome fictício), 52, que acabou se casando durante nove anos com alguém que conhecer através do 145. O Disque Amizade existe até hoje, não mais como 145 e, sim, 4003-4145. Ao ligar para esse número a pessoa ouve uma mensagem de saudações e logo em seguida um menu de opções onde pode escolher uma sala e conversar com até seis participantes ao mesmo tempo sem precisar se identificar. A aproximação do designer Junior Reis, 28, e da farmacêutica e empresária Luciana Silva também se deu por conta da ajuda de uma ferramentazinha, no caso o Fotolog. Espécie de Instagram, mas sem os filtros e as indissociáveis fotos de comida, foi por ele que o casal se conheceu. “Um dia, a Lu comentou uma das minhas fotos, me elogiando. Na hora eu fiquei doido, achei ela linda. Comentei de volta e ficamos trocando elogios, até que ela me pediu em casamento! Eu aceitei, mas ficou só na brincadeira porque eu morava em São Paulo e ela em BH, e não tinha um tostão nem pra vir visitá-la”, lembra Junior. Mesmo com o interesse mútuo, a falta de perspectiva de um encontro presencial fez o romance apagar naquele diálogo e, dali em diante, continuaram se falando, mas apenas como amigos. O Fotolog ficou para trás, mas a cada nova rede social, se adicionavam novamente. Até que, em 2011, Junior veio a uma festa junina em Belo Horizonte e eles finalmente se conheceram. A partir daí, foram só alguns meses até que a brincadeira do casamento se tornasse uma intenção real e já faz um mês que aconteceu de fato. A cerimônia, como não podia deixar de ser, contou com um site, amigos conhecidos virtualmente e drinks batizados com os apelidos que usavam online. Do digital ao analógico Mesmo que o Facebook ou as salas de bate-papo não tenham sido criadas primordialmente com esse fim, o psicólogo Cláudio Paixão explica que faz parte da dinâmica social que as pessoas se apropriem das ferramentas para desenvolver relações afetivas umas com as outras. “Embora não sejam estritamente para paquera, elas criam uma ambiência e aí as pessoas se encarregam de criar formas de explorá-la. A sociedade vai se moldando a esses recursos, que passam a ser encarados de maneira natural”, explica. Não surpreende que um estudo do instituto de pesquisas norte-americano Pew Research Center, tenha revelado que, na última década, um em cada dez relacionamentos sérios tenha começado pela internet nos Estados Unidos. Ainda, de 2005 pra cá, o percentual de pessoas que consideram a internet uma boa forma para conhecer pessoas tenha aumentado de 44% para 57%. Casados há 13 anos, a microempresária Cristina Dantas, 46, e o aposentado Marco Vinícius Garcia, 56, se conheceram numa sala de bate-papo, num tempo em que a internet era um território bem mais inóspito. “Naquela época, era bem mais difícil, as câmeras digitais eram raras e as pessoas não tinham a vida tão exposta na rede como têm hoje”, relembra Cristina. Por isso, levou tempo até que tudo acontecesse. “Até trocarmos telefone foram longos três meses de conversa online”, diz. Por outro lado, eles acham que isso contribuiu para que a união se fortalecesse. “O papo entre nós rendia muito e a gente aprendeu a se gostar sem saber nem como era o rosto um do outro”, conta Marco. No caso da relação da estudante Isadora Barcelos, 19, com seu ex-namorado, o vínculo também foi criado nas conversas online, mas com um pouco menos de aleatoriedade e mais senso de oportunidade. Ela o conheceu em uma festa, mas nem chegaram a conversar na ocasião. “Eu adicionei o Artur no Facebook no dia seguinte e brinquei que estava interessada num amigo dele. Na época, ele estava saindo de um relacionamento super conturbado e nós fomos nos aproximando, até que um dia chegamos à conclusão de que não dava mais pra ficar só na internet e nos encontramos. Ficamos um ano e meio juntos”, relata. À moda antiga Ainda que os relacionamentos mediados pelas redes estejam crescendo cada vez mais, tem muita gente continua usando meios, digamos, mais analógicos para encontrar o par perfeito. Segundo o cantor e ex-locutor do programa “Good Times” da rádio BHFM, quando o programa foi encerrado, em setembro deste ano, a média de respostas às telemensagens em busca de amor deixadas pelos ouvintes era de cerca 200 ligações. “A rádio cumpria um papel, já que era um programa romântico, de promover a paquera, o encontro à moda antiga, e foi muito bem sucedida”, afirma. Mesmo com o fim do programa, Agnaldo continua promovendo eventos com a temática do “Good Times” e o momento das mensagens ainda é dos mais esperados. Até o bom e velho correio elegante ainda tem lugar cativo nessa esfera. Naquela mesma festa junina em que Junior e Luciana – casal que citamos no início da nossa reportagem e que se conheceu pelo Fotolog – finalmente se encontraram, a radialista Luíza Glória, 26, foi convidada a fazer as vezes de cupido e ser responsável pelo leva e traz das mensagens. Ela tomou tanto gosto pelo ofício que já o faz há quatro anos e resolveu levar a prática para além dos limites da festa. “Há dois anos, percebi que o irmão de uma amiga tinha a mesma idade e interesses parecidos com os de uma das minhas irmãs. Combinei com essa amiga e ajeitamos um encontro para os dois, que estão juntos desde então e ficaram noivos na semana passada”, conta. Outro que foi atingido pelas flechas em forma de bilhetinhos de Luíza foi o estudante Rafael Andrade, 22. “Eu fui a uma das festas juninas e recebi um bilhetinho de uma garota querendo meu telefone. Mas achei melhor entrar naquele jogo e mantive a troca de recados por mais um tempo. Até que nos encontramos de fato e ficamos juntos. Mesmo tendo sido só por aquela noite, foi bom poder entrar naquela brincadeira”. Enquanto a estudante Gabi Santos, 28, conversava com um grupo de amigos sobre a carência dos jovens de oportunidades como a que Rafael teve, surgiu a ideia de promover um bailinho, nos moldes do que era realizado no extinto programa exibido nos anos 1990 e apresentado por Silvio Santos, “Em Nome do Amor”. Batizada com o mesmo nome, a festa acabou se tornando um grande encontro de paquera, com correio elegante, oferta de música e declamação de poemas. As duas primeiras edições foram um sucesso – a primeira com quase 2.000 confirmações no Facebook – e a próxima está prevista para dezembro. “A possibilidade de brincar com a coisa do encontro é algo que, a meu ver, chama a atenção. Quando a coisa é declarada, fica menos formal e, por isso, mais leve”, diz Gabi. Embora o Tinder seja o primeiro aplicativo a se proliferar de forma mais ampla, esse tipo de ferramenta já existe há mais tempo, veja alguns exemplos: Grinder Lançado em 2009, foi o primeiro a se basear na localização para exibir os perfis disponíveis. É voltado para homens homossexuais. Blendr Conhecido como Grindr do público heterossexual, busca pessoas com interesses comuns, a partir do preenchimento de um cadastro. Down Novo nome do “Bang With Friends”, que proporciona a interação entre amigos de Facebook interessados em sexo. Envia uma mensagem para pessoas que se marcam mutuamente. Após a mudança de nome, passou a mostrar também amigos de amigos. OkCupid Mostra o “par ideal” baseado em uma extensa lista de perguntas bastante específicas, tais como “Afinal de contas, o capitalismo fez do mundo um lugar melhor?” Zoosk Baseado em compatibilidade comportamental, também encontra possíveis parceiros a partir do preenchimento de dados. Permite que o usuário interaja de maneira lúdica, dando “piscadas”, ou que envie mensagens. No último caso, só a primeira é gratuita. Ashley Madison Em português claro, é uma ferramenta para quem quer “pular a cerca”. A pessoa precisa estar muito certa do que pretende fazer, porque além de lidar com a consciência, é necessário pagar por um plano mensal. Meet-me Permite encontrar contatos profissionais, amizades ou possíveis pares românticos.

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