Dando uma mãozinha

Homens e mulheres buscam ferramentas para facilitar a vida na hora da paquera

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

2012 Juliano Saccramento.
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Recém-solteiro, o estudante Lúcio Ferreira (nome fictício), 28, encontrou no Tinder um prato cheio e já foi a oito encontros desde que o instalou em seu telefone, dois meses atrás. O aplicativo disponibiliza informações do Facebook dos usuários – primeiro nome, fotos, idade, páginas “curtidas” e amigos em comum – para promover a paquera. Basta sinalizar os perfis que te interessam e o app se encarrega de possibilitar a conversa, quando o interesse for mútuo. Nova febre no Brasil – seu crescimento é maior que 140% ao mês no país, segundo um de seus cofundadores – é mais um artifícios que, desde os primórdios, “dão uma mãozinha” para quem está em busca de um par. É que, há séculos, homens e mulheres buscam formas de amenizar o constrangimento na hora do flerte. Um bilhete escrito entre fins do século XIX e meados do século XX e encontrado entre os pertences de Othelo Rodrigues Rosa comprova a tese. Com os dizeres “Por ti minha alma sofre e feliz seria si V. Ex. acceitasse os meus protestos de amor. Dobrando o canto direito do cartão será o sim. O canto esquerdo será o não. Devolvendo o cartão intacto dará uma esperança” impressos, o pedaço de papel achado dentro de um dos livros do jornalista, poeta e historiador gaúcho demonstra que, já naquela época, as pessoas tinham seus recursos para facilitar a aproximação. Em meio a histórias mediadas por correio elegante, disque-amizade, salas de bate-papo e redes sociais, o Pampulha buscou entender o sucesso dessas artimanhas que auxiliam na árdua tarefa de encontrar um amor – ainda que só por uma noite. Proteção Quando recorrem a esses subterfúgios, as pessoas se revestem de uma espécie de névoa que as protege de lidar com alguns aspectos da paquera que podem ser desagradáveis, como explica o psicólogo e professor da UFMG, Cláudio Paixão. “Nesses casos, elas não precisam olhar o outro no rosto e ver reações que eventualmente vão ser desagradáveis, inadequadas, coisas que vão deixá-las inseguras”, acrescenta. Ferramenta criada nos anos 1970, o Disque- Amizade virou febre no país nas décadas de 80 e 90 e se popularizou por possibilitar a conversa entre mais de dois telefones. Bastava ligar 145 para entrar numa linha cruzada com outras pessoas e, a partir dali, estreitar suas relações com quem parecesse mais interessante. “Havia gente que ligava só para fazer amizade mesmo, mas eu tinha a esperança de encontrar um namoro, por conta das dificuldades que vinha tendo com as abordagens presenciais”, conta o engenheiro Paulo Oliveira (nome fictício), 52. Acabou funcionando e ele teve uma relação de quase uma década, graças ao 145. Quer casar comigo? Muitos anos depois – já em 2003 –, e de forma menos intencional, o caso do designer Junior Reis, 28, e da farmacêutica e empresária Luciana Silva também se deu por conta da ajuda uma ferramentazinha, o Fotolog. Espécie de Instagram, mas sem os filtros e as indissociáveis fotos de comida, foi por ele que o casal se conheceu. “Um dia, a Lu comentou uma das minhas fotos, me elogiando. Na hora eu fiquei doido, achei ela linda. Comentei de volta e ficamos trocando elogios, até que ela me pediu em casamento! Eu aceitei, mas ficou só na brincadeira, porque eu morava em São Paulo e ela em BH, e não tinha um tostão nem pra vir visitá-la”, lembra Junior. Mesmo com o interesse mútuo, a falta de perspectiva de um encontro presencial fez o romance apagar naquele diálogo e, dali em diante, continuaram se falando, mas apenas como amigos. O Fotolog ficou para trás, mas a cada nova rede social, se adicionavam novamente. Até que, em 2011, Junior veio a uma festa junina em Belo Horizonte e eles finalmente se conheceram. A partir daí, foram só alguns meses até que a brincadeira do casamento se tornasse uma intenção real e já faz um mês que aconteceu de fato. A cerimônia, como não podia deixar de ser, contou com um site, amigos conhecidos virtualmente e drinks batizados com os apelidos que usavam online. Do moderno ao ‘analógico’ Casados há 13 anos, a microempresária Cristina Dantas, 46, e o aposentado Marco Vinícius Garcia, 56, se conheceram numa sala de bate-papo, num tempo em que a internet era um território bem mais inóspito. “Naquela época, era bem mais difícil, as câmeras digitais eram raras e as pessoas não tinham a vida tão exposta na rede como têm hoje”, relembra Cristina. Por isso, levou tempo até que tudo acontecesse. “Até trocarmos telefone foram longos três meses de conversa online”, diz.  Por outro lado, eles acham que isso contribuiu para que a união se fortalecesse. “O papo entre nós rendia muito e a gente aprendeu a se gostar sem saber nem como era o rosto um do outro”, conta Marco.   No caso da relação da estudante Isadora Barcelos, 19, com seu ex-namorado, o vínculo também foi criado nas conversas online, mas com um pouco menos de aleatoriedade e mais senso de oportunidade. Ela o conheceu em uma festa, mas nem chegaram a conversar na ocasião. “Eu adicionei o Artur no Facebook no dia seguinte e brinquei que estava interessada num amigo dele. Na época, ele estava saindo de um relacionamento super conturbado e nós fomos nos aproximando, até que um dia chegamos à conclusão de que não dava mais pra ficar só na internet e nos encontramos. Ficamos um ano e meio juntos”, relata.    Adaptação Mesmo que o Facebook ou as salas de bate-papo não tenham sido criadas primordialmente com esse fim, o psicólogo Cláudio Paixão explica que faz parte da dinâmica social que as pessoas se apropriem das ferramentas para desenvolver relações afetivas umas com as outras. “Embora não sejam estritamente para paquera, elas criam uma ambiência e aí as pessoas se encarregam de criar formas de explorá-la. A sociedade vai se moldando a esses recursos, que passam a ser encarados de maneira natural”, explica.   Não surpreende que um estudo do instituto de pesquisas norte-americano Pew Research Center, tenha revelado que, na última década, um em cada dez relacionamentos sérios tenha começado pela internet nos Estados Unidos. Ainda, de 2005 pra cá, o percentual de pessoas que consideram a internet uma boa forma para conhecer pessoas tenha aumentado de 44% para 57%.   À moda antiga Ainda que os relacionamentos mediados pelas redes estejam crescendo cada vez mais, tem muita gente continua usando meios, digamos, mais analógicos para encontrar o par perfeito. Segundo o cantor e ex-locutor do programa “Good Times” da rádio BHFM, quando o programa foi encerrado, em setembro deste ano, a média de respostas às telemensagens em busca de amor deixadas pelos ouvintes era de cerca 200 ligações. “A rádio cumpria um papel, já que era um programa romântico, de promover a paquera, o encontro à moda antiga, e foi muito bem sucedida”, afirma. Mesmo com o fim do programa, Agnaldo continua promovendo eventos com a temática do “Good Times” e o momento das mensagens ainda é dos mais esperados.   Até o bom e velho correio elegante ainda tem lugar cativo nessa esfera. Naquela mesma festa junina em que Junior e Luciana – casal que citamos no início da nossa reportagem e que se conheceu pelo Fotolog – finalmente se encontraram, a radialista Luíza Glória, 26, foi convidada a fazer as vezes de cupido e ser responsável pelo leva e traz das mensagens. Ela tomou tanto gosto pelo ofício que já o faz há quatro anos e resolveu levar a prática para além dos limites da festa. “Há dois anos, percebi que o irmão de uma amiga tinha a mesma idade e interesses parecidos com os de uma das minhas irmãs. Combinei com essa amiga e ajeitamos um encontro para os dois, que estão juntos desde então e ficaram noivos na semana passada”, conta.    Outro que foi atingido pelas flechas em forma de bilhetinhos de Luíza foi o estudante Rafael Andrade, 22. “Eu fui a uma das festas juninas e recebi um bilhetinho de uma garota querendo meu telefone. Mas achei melhor entrar naquele jogo e mantive a troca de recados por mais um tempo. Até que nos encontramos de fato e ficamos juntos. Mesmo tendo sido só por aquela noite, foi bom poder entrar naquela brincadeira”.   Enquanto a estudante Gabi Santos, 28, conversava com um grupo de amigos sobre a carência dos jovens de oportunidades como a que Rafael teve, surgiu a ideia de promover um bailinho, nos moldes do que era realizado no extinto programa exibido nos anos 1990 e apresentado por Silvio Santos, “Em Nome do Amor”. Batizada com o mesmo nome, a festa acabou se tornando um grande encontro de paquera, com correio elegante, oferta de música e declamação de poemas. As duas primeiras edições foram um sucesso – a primeira com quase 2.000 confirmaçoes no Facebook – e a próxima está prevista para dezembro. “A possibilidade de brincar com a coisa do encontro é algo que, a meu ver, chama a atenção. Quando a coisa é declarada, fica menos formal e, por isso, mais leve”, diz Gabi.          

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