Um velho conhecido que veio a galope: Rodrigo Amarante

Saiba tudo sobre o show de lançamento do álbum "Cavalo", em Belo Horizonte, e entenda porque o músico precisou se distanciar de tudo o que já fez para chegar a um resultado inédito e evitar comparações

iG Minas Gerais | Juliana Baeta |

Esqueça tudo o que você sabe sobre o músico Rodrigo Amarante, ex-Los Hermanos. Esqueça, inclusive, isso. Esqueça também a participação dele em projetos como a Orquestra Imperial - uma espécie de orquestra de gafieira formada com vários músicos- e a banda Little Joy, um grupo de indie rock formado em parceria com o mezzo brasileiro mezzo norte-americano Fabrizio Moretti, baterista do The Strokes. Na noite dessa sexta-feira (8), Amarante foi diferente de tudo isso ao apresentar o seu primeiro álbum solo "Cavalo", na casa de shows Granfino's. E talvez o mais próximo dele mesmo. Isso porque o álbum traz canções que em nada se parecem com as compostas pelo músico ao longo de sua carreira. E também porque são músicas que falam de sentimentos intimamente humanos como solidão, exílio, passado. Percepções profundas que só o auto-conhecimento pode proporcionar. É o que ele explica na carta divulgada juntamente ao lançamento de "Cavalo", quando fala, em um trecho: "tudo o que estava do lado de dentro protegido pela máscara veio para fora, ficou exposto, limpo de direções, cores, está claro e sem vergonha, aberto. Se revelou a beleza simples da página, o preto no branco que a gente gosta de usar como sinômino de coisa exata mas que é justo onde moram as infindáveis delícias da interpretação, onde há o maior dos vãos, onde está num enfileirado de códigos o potencial reflexo improvável de ti, do teu olhar. Dentro só o que ouvir. Aí outra separação, outro espaço e outro duplo, dentro e fora, superfície e volume, a coisa e o nome da coisa, eu e a ideia que faço de mim". Em sua apresentação em BH, Amarante, embora deixe clara a intenção da ideia fixa de solidão, esteve muito bem acompanhado dos músicos Gabriel Bubu, Gustavo Benjão, Lucas Vasconcellos e o seu antigo companheiro de banda Rodrigo Barba, ex-baterista do Los Hermanos. O quinteto se revezou nos instrumentos e manteve a mesma postura discreta de Amarante. Concentração, foco e seriedade foram as características principais no palco, mas seria injusto classificar a apresentação como introspectiva, já que o compositor era só sorrisos e a demonstração clara do carinho com o público e do contentamento em ver tantas lágrimas de emoção e aplausos na plateia. Os fãs, muitos que realmente acompanham - e entendem - a carreira do músico em todas as suas fases, outros, órfãos da banda que marcou a adolescência de muita gente, estavam em êxtase. Muitas canções foram cantadas em coro e os semblantes dos rostos que assistiam a apresentação eram, em sua maioria, de satisfação. Aquela mesma satisfação em reencontrar um velho conhecido, mas diferente e surpreendente. Cavalo O nome do álbum dá margem à diversas interpretações, desde à óbvia ligação com animal, até as reflexões mais profundas sobre a representação do cavalo enquanto metáfora para força, liberdade, nobreza. "As infindáveis delícias da interpretação". Mas cavalo, é também, em algumas religiões afro-brasileiras, como a umbanda, o termo usado para denominar o médium que recebe uma entidade, ou seja, tem o corpo usado como "montaria" a outra pessoa, um espírito. "Na solitude de ser estrangeiro, pensando na mobilia que havia abandonado e tentando ainda enxergar-me nela eu me encantei com a sala vazia, com o espaço, e me pus a olhar pra distância, a ver o duplo que me espelha de fora, que reflete a visão que chamo de minha, veículo e cúmplice inventado do qual sou eu também o canal, esse que chamo Cavalo", explica o músico em outro trecho da carta. A referência espírita aparece também em uma das canções do álbum e a primeira a ser lançada, "Maná": "Ê Maná, hoje o ponto é pra cura de amor, ê Maná Omar, hoje a dança te quebra o feitiço". Extras Além de executar as músicas de Cavalo, Amarante prestou a oportuna homenagem ao cantor e compositor norte-americano Lou Reed, criador da banda ícone de rock alternativo Velvet Underground, executando a canção "Satelite of love". A música "Evaporar", composta por ele na banda Little Joy foi a última a ser tocada, após os gritos de "mais um, mais um" da plateia. A escolha casou bem com a proposta do novo álbum, já que ainda na época em que foi composta mostrava indícios da busca do músico por algo novo. "O tempo que eu perdi só agora eu sei aprender a dar, foi o que ganhei e ando ainda atrás desse tempo ter, pude não correr e ele me encontrar". Nos shows, Amarante toca ainda duas inéditas de Cavalo que não estão no álbum disponível para download na internet: Dancing e Noster Nostri. Set List - Irene - Nada em vão - O cometa - I'm ready - Mon Nom - Cavalo - Fall Asleep - Um milhão - Iddle Eyes - Dancing - Satelite of love (Lou Reed) - Hourglass - Maná - The Ribbon - Tardei - Noster Nostri - Evaporar (Little Joy)

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