Explicar o adeus

iG Minas Gerais |

Mãe alguma deveria perder um filho. Definitivamente, não. A ordem das partidas poderia ser cronológica: nasceu primeiro, segue primeiro. É o que penso. Mas quem sou eu para defender essa tese, quanto mais para entender e explicar planos maiores. Mesmo assim, a inversão do tempo leva à reflexão. Passei os últimos dias pensando sem parar em uma mulher que nem ao menos cheguei a conhecer. Soube que é jovem. Tinha dois filhos. Nesta semana, sentiu uma dor imensurável: um deles se foi. O garoto recebeu a receita, foi medicado. E veio, então, uma alergia desconhecida e fatal. Tinha só 10 anos. Estudava na escola do meu filho. Matriculado em outro turno. Amigo de amigos dele. Lucas ouviu as histórias e se emocionou com as lembranças contadas pelos meninos. Eu soube da notícia pelo Facebook. Tarjas de luto em páginas geralmente coloridas por memes já não era um bom sinal. Entendi realmente que algo muito triste havia acontecido nas palavras do Marcelo. Ele se despedia do colega de uma forma singela. Foi impossível não se emocionar. Homenagem simples e sincera. Na noite de terça, tivemos que falar sobre a morte – assunto delicado nas conversas lá em casa. Lucas prefere evitar. Também rezamos. Pelo menino, pela família e, principalmente, por aquela mãe. Meu filho estava assustado. Vê-lo assim me fez voltar no tempo. À Escola Estadual Barão do Rio Branco. Aos meus 9 anos, eu acho. Inevitavelmente me lembrei de como lidei com esse primeiro contato com a morte. Tive vontade de ligar para a Tininha (a melhor amiga de infância que alguém já pode ter tido). A Tininha, sim, vai entender esse momento e, certamente, lembrar que a Ana Paula não voltou mais ao Barão naquele ano. Na época, nós duas também ficamos muito assustadas. Me recordo perfeitamente do rosto da Ana Paula, pele branquinha, cabelo ondulado, enorme. Tinha voz mansa e era muito educada. Me lembro ainda de detalhes do acidente. Passou no telejornal. Foi no alto da Afonso Pena. Ela e o pai se foram. Salvaram-se a mãe e o irmão. Nunca mais esqueci essa história. Acho que vai ser assim com o Lucas e com os amigos dele que conheciam o garoto. Uma forma dura de as crianças aprenderem sobre a vida. Dura, mas real. E realidade é algo que nem as mães mais protetoras conseguem aliviar. Há certas dores para as quais não há alívio. São vividas intensamente. Por uns com muita revolta, por outros com coragem. Cada qual tem suas escolhas, seus caminhos. Todos devem ser respeitados. No entanto, quando eu penso na luta de mães, uma delas se torna especial, de imediato. O nome dela é Mirian. Para mim, tia Mirian. Nunca foi minha tia de verdade, mas sempre desejei que fosse. Ela é, sem a menor dúvida, uma das melhores pessoas que já conheci. Uma mãe fenomenal. Uma amiga e tanto. Não convivemos atualmente. E, talvez, ela não saiba, mas influenciou muito em minha formação. Me ensinou tantas coisas numa fase em que quase ninguém está disposto a aprender: a adolescência. Eu gostava de ouvi-la. Cada gargalhada, gestos de afeto, cada caso e os projetos – sempre tão inteligentes. Convivemos intensamente naquele período. Quando eu tinha 15 anos, quase 16, vi de perto a dor dessa mulher. Perdeu uma das filhas. Na época, eu estava longe de saber o que era ser mãe, mas entendi perfeitamente – através da tia Mirian – o que era renascer a cada dia. A cada momento, pessoas precisam reconstruir histórias. Podem estar baseadas no amor que não acaba, nas lembranças carinhosas, na dor da saudade ou na necessidade de cuidar de quem fica. O tal clichê “vida que segue” é realmente inevitável. Seguem melhor os valentes.

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