Bardo do bar: Istambul

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salomão salviano
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As duas tinham acabado de voltar juntas do banheiro, arrumando o vestido, enxugando a coriza, rangendo os dentes e tentando disfarçar. A conversa, portanto, já estava em curso. “Mas será que ele está com algum problema mesmo, ou por algum motivo qualquer está se fazendo de doido? Sei lá, é muito sem noção isso tudo”, comentou a loirinha de cabelo curto e cacheado. “De um mês pra cá piorou, porque além daquela história do camarão, de ele ter chegado lá em casa com meio-quilo de camarão para fazer uma moqueca, sabendo que só o cheiro do camarão me empola toda e faz minha garganta fechar, além disso, uma semana depois ele me chegou com uma lingerie de presente, só que tamanho G, e o meu tamanho é P, ele sabe disso. Ou ainda que tivesse dúvida entre P e M, vá lá, mas chegar com uma lingerie G!”, emendou a morena de cabelo preto à Cleópatra e óculos de aros azuis. “Eu fiquei passada, perguntei ‘o que é isso?’, e ele, com a maior cara de paisagem, só disse que não tinha reparado direito na hora que comprou e que...”, ia completando, quando a loira começou a falar por cima. “Digo que ele pode estar se fazendo de doido porque, sei lá... Vocês estão bem? Sabe, os homens, boa parte deles, às vezes eles estão querendo terminar um relacionamento, não sabem como e começam a se fazer de doidos”, ponderou, enquanto procurava alguma coisa na bolsa. “A gente vinha muito bem, sem problema nenhum, quer dizer, o problema são essas atitudes bizarras que ele começou a tomar. E o que me deixa em parafuso é que, justamente, são atitudes quase sempre carregadas de uma intenção carinhosa, preparar um almoço lá em casa no fim de semana, me presentear sem um motivo específico”, dizia agitada, gesticulando muito, a de óculos de aros azuis. “Vamos lá fora fumar um cigarro”, perguntou a outra. “Acho que ainda está chuviscando, vamos esperar mais um pouquinho pra ver se para”; “então acho que vou pedir outro drink”; “eu também”; “menina, tô fumando demais, assim de ficar com fissura se eu passo muito tempo sem, sabe como?, fissura mesmo”, comentou a loira. A morena começou a contar sobre sua sina com o cigarro: “Aí é a hora que a gente tem que botar o pé no freio, dar uma parada. Eu digo isso mas sei como é difícil, você lembra de quando eu tentei parar, desandei a comer tudo quanto é tipo de doce, chocolate, bala, montes cavalares de guloseimas, e aí, claro, a balança apitou e eu achei melhor voltar para o cigarro”. A loira fez um comentário no qual eu, distraído por uma movimentação estranha, um bate-boca na porta do Istambul, não prestei atenção. Quando fui de novo puxado pela animada conversa da dupla na mesa vizinha, a morena de óculos de aros azuis, que passava a mão freneticamente no cabelo, já se empenhava em levantar o moral da amiga, cujo semblante eufórico havia ficado subitamente nublado. “Esquece disso, menina, o Beto era um chato de galocha, sempre achei e nunca escondi isso nem de você nem dele. E não era só por causa daquele patrulhamento contra cigarro não, era por causa da pinta de coroinha, todo certinho, a mania insuportável de achar que pode dar conselho pra todo mundo. Te digo, você está melhor sem ele”. As poucas palavras da morena pareceram ter surtido efeito, porque a loirinha aprumou o tronco e soltou um “ah, é isso mesmo”, mexendo as mãos como quem espana a poeira de cima de si mesma. “Melhor deixar guardadas as boas lembranças e só, né!?, em vez de ficar fritando sobre como teria sido se não tivesse acabado. Aquela viagem que a gente fez para Portugal e Espanha, por exemplo, aquilo...”, se reanimava, quando a outra cortou falando por cima: “Ah, então, parece que vai dar certo mesmo aquela ideia de ir pro Leste europeu no segundo semestre do ano que vem. Imagina, Romênia, Sérvia, Bulgária! E aliás, já que estamos no Istambul e a propósito disso, parece que existe mesmo a possibilidade de a gente dar um giro maior e ir até a Turquia também”. Sem dar tempo de respiro, a loira pulou da geografia para a culinária. “Ai, a berinjela recheada daqui é ótima, meio picante. Eu até pediria uma se eu estivesse com fome...”, dizia, quando a de óculos de aros azuis completou “eu também não estou com fome nenhuma”, e as duas desataram a rir. “Vamos fumar o cigarro?”, perguntou a loira.

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