Os “xing lings” de BH agora querem a Galeria do Ouvidor

Comerciante faturava R$ 240 mil por mês; depois da chegada dos orientais, não atinge R$ 30 mil

iG Minas Gerais | Jáder Rezende |

PEDRO GONTIJO / O TEMPO
Silvia Figueiredo diz que não teme, e vai enfrentar a concorrência
Depois de saírem dos shoppings populares e invadirem o hipercentro de Belo Horizonte, os comerciantes asiáticos querem agora dominar um dos mais tradicionais centros de compra da capital. Prestes a completar 50 anos, a Galeria do Ouvidor é o mais novo objeto do desejo de chineses e coreanos, que pretendem, a todo custo, se instalar nas galerias. E esse assédio vem tirando o sono de muitos lojistas estabelecidos há décadas no local, que pode se transformar em mais um centro de vendas e distribuição de produtos contrabandeados.De acordo com o síndico da Galeria do Ouvidor, Valter Faustino da Silva, pelo menos três lojistas relataram ter recebido propostas de compra de seus estabelecimentos. Segundo ele, um casal de coreanos esteve em seu escritório para buscar informações sobre venda e aluguel de imóveis lá. “Eles disseram que estavam dispostos a pagar qualquer preço”, afirma, revelando que as propostas recaem, preferencialmente, sobre pontos nos níveis das ruas Curitiba e São Paulo, onde o trânsito de pessoas é mais intenso. Lá, o valor médio de aluguel de uma loja é R$ 7.000. Uma loja chega a ser vendida por até R$ 1,5 milhão.Inaugurada em março de 1964, a poucos dias do golpe militar, a Galeria do Ouvidor foi o primeiro grande centro comercial de Belo Horizonte. A maioria das lojas comercializa artesanato, bijuterias e semijoias, artigos que vêm sendo introduzidos em grande escala pelos asiáticos no comércio local, como já mostrou O TEMPO em reportagens recentes.Valter Faustino pondera que nada pode fazer. “Se qualquer estrangeiro chegar com dinheiro na mão e fizer uma boa proposta, do tipo irrecusável, fecha o negócio”, diz. “Se esses asiáticos se estabelecerem aqui, pagarem em dia suas obrigações com o condomínio e obedecerem as regras da convenção, não poderemos interferir em suas ações, mesmo se praticarem preços muito abaixo do mercado”, diz. “Já as questões da lei são da alçada da Justiça, do poder público”, arremata.Funcionários demitidos. Empresários da galeria afirmam já sentir o reflexo dessa concorrência desleal, como Luiz Silva, que trabalha com bijuterias e se viu obrigado a reduzir pela metade o número de funcionários de sua loja. “Até o início deste ano, chegava a faturar R$ 240 mil por mês, entre vendas no varejo e no atacado. Agora não consigo atingir R$ 30 mil”, ressente-se.Leonardo Sarmento, na galeria há quase dez anos, é mais um a manifestar sua indignação. “Enquanto compramos peças a R$ 20 para revender por R$ 30 ou R$ 40, eles aparecem com a mesma mercadoria a R$ 5”, desabafa. “E o pior, além de venderem bem mais do que nós, não emitem nota fiscal e não pagam os impostos devidos”.Há 15 anos no ramo de bijuterias e bolsas, Gervásia Albino revela também sentir o reflexo da concorrência dos chineses e lamenta o fato de estar preparada para um Natal bem mais magro. “O movimento está mais fraco. As vendas deveriam aumentar já no início de outubro, mas estamos amargando queda de 20%. Se o poder público não tomar providência, muitos irão decretar falência”, prevê.Recém-estabelecida na Galeria do Ouvidor, a empresária Silvia Figueiredo confessa ter refletido muito. “Minha primeira preocupação foi justamente com a concorrência desleal dos chineses, pois meu forte são bolsas e acessórios”, conta. “Mas, como sou brasileira e não desisto nunca, vou me desdobrar para vender mais do que eles, fazendo promoções, facilitando formas de pagamento e dando descontos mais vantajosos nas vendas no atacado”, revela, frisando que, de uma certeza, não abre mão: “Não vou me intimidar. Vou enfrentá-los”, avisa.ParticipeColaboração. Esta reportagem foi sugerida por um leitor. Encaminhe sua ideia, reclamação ou denúncia para o e-mail economia@otempo.com.br.

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