Pelos caminhos da Índia (parte 1)

iG Minas Gerais |

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–Isso aqui é pimenta pura! – dizia enquanto comia, com cara de quem não gostou, o prato vegetariano oferecido pela companhia aérea. Era o ano de 2004. Pela terceira vez, estava a caminho da Índia, país de belezas, cores, essências, misticismos e verdades, onde as manifestações da espiritualidade em tudo se faziam presentes. E eu, com meu velho caderninho nas mãos, registrava passo a passo, essa inesquecível viagem. Sei o que me espera! Pensava divertida ao me lembrar da culinária indiana, famosa por seus condimentos e excesso de pimenta. Chegamos numa manhã ensolarada. Cansados e cheios de expectativas, nos dirigimos ao hotel. Encontramo-nos em Madras, cidade de seis milhões de habitantes. É uma cidade desenvolvida, apesar das inúmeras favelas de piaçava ao longo das avenidas. À nossa frente, uma vaca come um cartaz de papel que, afoitamente, puxa da parede. O trânsito é caótico. Pessoas, carros da década de 50, ônibus, caminhões, riquixás e carros de boi fazem das ruas uma passarela de cores, buzinas e completa desordem. – Como pode isso? – pergunta um de nossos companheiros de jornada. – Questões culturais, excesso de gente, falta de infraestrutura e, até mesmo, questões religiosas – tento explicar, quando surge, no meio da avenida, outra vaca empacando o trânsito. São tantas as respostas e poucas as soluções. Também, se assim não fosse, a Índia não seria o que é, não teria esse traço marcante de sua “personalidade”, essa característica pluralista que a faz tão única. No dia seguinte, seguimos para a sede mundial da Sociedade Teosófica, onde a presidente, Radha Burnier, uma senhora magrinha e interessante, nos aguardava. Fundada em 1875 por Helena Blavatsky – uma russa fantástica –, autora de inúmeros livros, cujos conhecimentos recebera de mestres do Oriente, a Sociedade Teosófica, da qual o Vittorio faz parte, é uma entidade totalmente ecumênica, em que teosofia quer dizer “sabedoria divina”. Seguimos para Pondicherry, ex-colônia francesa, numa van estilizada com cortininhas e fru-frus. O motorista, assim como a maioria dos indianos, é neurótico por buzinas e será ele a nos acompanhar até o sul do país numa longa viagem. Saímos às 9h30 e às 9h47... BUM!!! Trombamos em um riquixá. Nada sério, coisas de rotina. Ainda na saída de Madras, um complicado engarrafamento. No cerne do caos, uma vaca atravessa a avenida. O motorista, impaciente, corta caminho pelo acostamento de terra, em meio a barracas e gente. Do outro lado, inusitada cena: uma extensa fila de automóveis, caminhões, ônibus e riquixás. E, à frente de tudo, um colossal carro de boi, repleto de feno, a empacar o trânsito, obrigando todos, a “passo de boi”, a prosseguir viagem. Detalhe: o condutor do carro, sem se dar conta do transtorno que causava, tranquilamente, dormia. Em meio à estrada, paramos num mercado. É dia de feira, onde se comercializam de tudo: de bois a verduras. Os homens que vendem os animais estão sempre discutindo. As pessoas nos rodeiam, querem ser fotografadas. A máquina digital faz sucesso, principalmente, quando elas se veem no visor. Continuamos viagem com o motorista fazendo loucuras. Ao lado da estrada, um cemitério com 15, 20 túmulos no máximo. Cristãos ali são minoria. Hinduístas, que são a maioria naquele país, assim como os budistas, são cremados. Atravessamos vilarejos com suas choupanas de piaçava. As pessoas se sentam de cócoras, conversando ou pensando na vida. O ônibus à frente para de repente, obrigando-nos, mais uma vez, a seguir na contramão. Do outro lado da estrada, um templo hinduísta com imagens coloridas e estranhamente fascinantes. Plantações de arroz, praias, coqueirais, vilarejos com seus minúsculos casebres de palha, mulheres doces e belas em suas vestes coloridas, boiadas, cabritos, templos e pitorescas paisagens nos são mostrados como uma tela viva, emoldurando imagens que jamais serão esquecidas.  

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