Dos black blocs ao movimento contra biografias não autorizadas

Podemos estar a um passo do cerceamento à imprensa

iG Minas Gerais |

Que desejam, afinal, os black blocs, que saem às ruas portando máscaras horrendas e amedrontadoras, valem-se da violência e da estupidez, mas, às vezes, estranhamente, só agem no fim de manifestações pacíficas, em defesa de demandas justas? Estão a mando de quem? Quem os coordena? Recebem ou não ajuda financeira? Seria, quem sabe, só um movimento anarquista, mas com ingredientes novos, como o vandalismo? Seus propósitos são ou não políticos? Quais são eles? E, se existem, justificariam as suas ações vandálicas? Defendem o regime democrático ou o que querem, na realidade, é fragilizar o Estado de direito democrático no qual vivemos? Há necessidade, como agora quer o ministro da Justiça, de mudança na legislação para combatê-los? Muito diferente dos black blocs, as manifestações que levaram, em junho, mais de 1 milhão de brasileiros às ruas, foram pacíficas e absolutamente legais. São garantidas pela Constituição. Refletiram o cansaço do povo contra a corrupção sistêmica no país, contra a qualidade dos nossos serviços públicos e, enfim, contra o mau uso do dinheiro público. Pediram aos políticos reformas, mas, sobretudo, insistiram na reforma política. Mas essa decidida multidão que saiu às ruas em todo o país optou depois pelo silêncio e, infelizmente, desapareceu. A pergunta que não quer calar, e que se espalha pelas entrelinhas das redes sociais, é uma só: os black blocs, ao impedirem a continuação daquelas manifestações de junho, ajudam ou não o governo da presidente Dilma Rousseff? Dão impulso ou não à sua reeleição? Quero acreditar na repulsa manifestada pela própria presidente, em entrevista à imprensa, contra os mascarados: “Agredir e depredar não fazem parte da liberdade de manifestação. Pelo contrário. São barbáries antidemocráticas. A violência cassa o direito de quem quer se manifestar livremente. A violência deve ser coibida. E é fascista”, disse, logo depois da sugestão dada pelo repórter que a entrevistava... Você pode achar estranho, leitor, mas os black blocs me levam às biografias não autorizadas e, por sua vez, ao movimento Procure Saber, coordenado por três celebridades: Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano, em uma de suas colunas em “O Globo”, disse outro dia que o assunto está longe de se esgotar, apesar da opinião em contrário, no mesmo jornal, do jornalista Zuenir Ventura. Longe ou perto de se esgotar (o assunto só se esgotará, de fato, depois de mais uma vitória em favor da liberdade), a verdade é que, aprovadas apenas as biografias autorizadas, estaremos a um passo do cerceamento à imprensa. Abordei isso, há dias, em artigo neste jornal (“Rememoremos o passado para que possamos forjar o futuro”), mas, anteontem, o colunista Merval Pereira, em sua coluna em “O Globo”, foi ainda mais objetivo: “Se o STF entender que o Judiciário pode decidir que a intimidade de uma pessoa pública deve prevalecer sobre o interesse da sociedade na livre circulação de informações, a porta estará aberta para que a mesma tese se aplique ao jornalismo”. Quero ser tão claro quanto Merval (e ele também disse isso): os artigos 20 e 21 do Código Civil poderão servir, amanhã, para impedir a publicação de matérias que supostamente invadam a vida privada de alguém. E será isso o que querem as celebridades citadas? Que terá acontecido a Chico, Caetano e Gil? Desconfio que haja, hoje, no céu do Brasil, algo não identificado, mas que, seguramente, não é nenhum avião de carreira...

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