Autofagia dos próprios restos

Sete anos depois, coreógrafo e bailarino Tuca Pinheiro volta à cena com trabalho dentro da programação do FID

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Novos parâmetros. Tuca critica a visão de dança ditada por uma visão neo-colonizadora europeia
O reduto mais conhecido do Holocausto é o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau na Polônia, onde nada menos que 3 milhões de judeus foram assassinados pelos nazistas, representantes da raça pura ariana forjada por Adolf Hitler. A história já foi filmada sob diversos pontos de vista. “O Ovo da Serpente” de Ingmar Bergman, “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg, “O Menino do Pijama Listrado”, de Mark Herman e “O Pianista” de Roman Polanski são apenas alguns dos filmes conhecidos sobre o assunto. O cinema, aliás, parece ter uma certa fixação pela temática. Talvez tamanho seja o horror causado por essa trágica história que merece ser lembrada e recontada sempre. Impactado por visitas a Auschwitz-Birkenau, o renomado coreógrafo Tuca Pinheiro precisou mudar seu espetáculo “Hyenna – Não Deforma, Não Tem Cheiro, Não Solta Tiras”, que estreia hoje dentro da programação do FID, Fórum Internacional de Dança, no Espaço Cultural Ambiente. “Hyenna” não é um espetáculo a respeito do Holocausto. A influência dele na obra vai se estender às relações de submissão do Novo Mundo ao Velho Continente. Passando pelos ditames da dança, com predominância eugenista (alguma relação com o nazismo e os arianos?), etnocêntrica, asséptica e europeia. O processo da pesquisa dos materiais coreográficos se manteve atento e distante das verdades absolutas e julgamentos maniqueístas, entendendo que os vestígios são a matéria constitutiva de uma possível memória. Tuca viajou à Europa com o espetáculo “pronto”, mas ao se deparar com tanto lastro de história em Auschwitz-Birkenau, foi preciso ficar em Berlim mais três semanas ensaiando aquilo que seria a primeira sequência de seu novo espetáculo. “Fiquei impressionado com os restos, com as coisas que ficaram e remetiam àqueles que tinham vivido ali. Os óculos, aqueles de aro redondo dos judeus, os cabelos que resistem ao tempo, as pilhas de sapatos. Através deles se identifica a história”, afirma ele. O artista se deparou com seus próprios “restos”: experiências já vividas por ele em seu processos de criação na dança. A trajetória de Tuca passando pelo balé clássico, na Royal Academy of Dance de Londres, chega as palcos revisitada. E a figura da hiena foi escolhida porque representa esse ato de comer restos. Em seu habitat natural, o animal come basicamente restos deixados por outros predadores. A hiena representa uma certa sub-condição de vida, uma ambiguidade que transita entre o riso (característico do animal) e o resto. “Nós somos uma sociedade que come restos. Com os meus restos de outros trabalhos, eu fiz esse espetáculo. PARCERIA . Mesmo com vasto currículo como bailarino e coreógrafo, incluindo espetáculos com a companhia de dança do Palácio das Artes, Primeiro Ato, Benvinda Companhia, Meia Ponta e experiências no teatro, como a direção de “Cortiços” da Cia. Luna Lunera e “Órbitas” em que divide a direção com Eid Ribeiro, “Hyenna” é apenas o segundo espetáculo solo de Tuca Pinheiro e pela segunda vez, em coprodução com o FID. Segundo a diretora artística do Fórum, Adriana Banana: “Um coreógrafo feito o Tuca não consegue estímulo pra fazer um espetáculo dele nesses editais, então ele faz aqui no FID. Essa é a nossa maneira de estimular a produção local”, explica. Antes de “Hyenna”, foi a vez de “He, She or It - Vou Ficar até a Festa Acabar”, de 2006. Espetáculo que nas palavras de Tuca: “Discutia a questão de gêneros. Um desejo de pensar a dança. Tal esse desejo volta agora com mais acidez. Tanto que o novo espetáculo não é recomendado para menores”, diz. Agenda O quê. Estreia “Hyenna – Não Deforma, Não Tem Cheiro, Não Solta as Tiras” Quando. De hoje até domingo, às 20h Onde. Espaço Cultural Ambiente (rua Grão Pará, 185, Santa Efigênia) Quanto. R$4 e R$2 (meia)    

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