Realezas

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salomão salviano
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“Nós nunca seremos a realeza/ Isto não está em nosso sangue/ Esse tipo de amor não é para a gente/ procuramos um outro tipo de agito”. São estes versos astutos que povoam minha cabeça desde que esbarrei, por acaso, em “Royals”, de Lorde, uma das grandes canções de 2013. Grudenta e inteligentíssima, em texto e música. me lembro aqui de “Royals” porque seus versos se adequam com perfeição à grande (um pouco de ironia nesse grande, por favor) cizânia da semana: a vida de Alexander de Almeida, 39 anos, empresário paulistano. Ele foi tema de matéria impressa e em vídeo da edição desta semana da revista “Veja SP”: A vida dos ricaços festeiros da capital paulista. Na verdade, a vida das pessoas como ele, que tem – ou melhor, podem comprar – o chamado direito de privilégio. O popular VIP, essa sigla de três letras que, como num passe de mágica, transporta aqueles premiados com o título de “pessoas muito importantes” para o mundo das facilidades, do conforto, das bajulações. O que muitas vezes é traduzido como luxo, ostentação. Tudo com uma boa dose de ridículo, claro. “Éramos uma país pobre e medíocre”, escreveu Lobão, recentemente. “Hoje somos um país rico e medíocre”, conclui. Mesmo duvidando das atuais orientações ideológicas uivadas pelo músico, quando assistimos a vídeos como o divulgado pela “Veja SP”, quando assistimos o vídeo, a frase está ali, traduzida. O vídeo é um primor. Porque equilibra, com precisão cinematográfica, o cômico e o trágico. É difícil não rir especialmente da quantidade de erros na fala do sujeito, onde “status” vira “statis” e as concordâncias gramaticais são engolidas feito o champanhe que ele insiste em sorver diante das câmeras. O que dá um pouco a medida dessa consagração do “very important people” por aqui: demonstra certas prioridades invertidas, e, francamente o jequismo. E isso ninguém nos tira, não tem plástica, silicone, botox que resolva. Com seu sorriso infinito como uma eterna câimbra, como se tivessem colocado o de uma outra pessoa,transformam Alexander em uma figura de humor, um esquete não aproveitado de “Hermes e Renato”. Mas, por trás daquele sorriso, das consagrações, dos abraços e gestos de carinho trocados entre ele e sua “turma de balada”, um enorme e substancial vazio e uma infelicidade aparecem, gritando na nossa cara. O vídeo capta isso, de forma sutil: durante a entrevista, Alexander está sentado em um “trono”, no seu enorme aposento, o efeito que vemos não é de um rei, é de um sujeito, francamente, apequenado. Mas isso não é, no final das contas, problema dele? É sim. Ele tem todo o direito de querer ser assim. O que ele não tem o direito, é de acreditar que esse modelo de existência serve para todos. “Quem não queria estar num camarote, ter um carro potente, cheio de mulheres?” Alexander não pergunta, ele afirma. Muita gente não quer nada disso. O que assusta não é apenas a ignorância, a visão limitada do desejo do outro, a viseira existencial a que ele se condiciona, e, deitado em berço esplêndido, se refestelar. O que assusta é pensar que, mesmo com todos argumentos elencados, é grande a chance de ele se manter na certeza de que todos invejamos ele. O que Alexander tristemente nos mostra é que o camarote não é um espaço: é um estado de espírito. Assistir a vida o tempo todo de um lugar privilegiado é se privar do contato com o outro. É editar um dos materiais mais lustrosos que a vida nos oferece: as diferenças. É buscar o atalho da pobreza espiritual. O vídeo divulgado pela “Veja SP” é, antes de tudo, um retrato triste da experiência humana VIP: poucos celebrando do alto do Olimpo, alguns embaixo, desejando estar lá. O tratamento envernizado de malandragem ao se referir às mulheres. Os negros colocados em habitual lugar, como seguranças. Ella Yelich-O’Connor, a Lorde, aos 16 anos, mostra na canção que, ao contrário do que Alexander e muitos outros pensam, não é este seu ideal. Porque, voltando à canção, Lorde e seus amigos “não vieram do dinheiro e sabem lidar bem com isso”. Yeah, garota, mas além: vieram de uma boa educação, detalhe insignificante nos camarotes da vida, mas que talvez nos dê a dimensão entre Brasil e Austrália. E isso não é feito “statis”. Isso ainda não se compra. A titular desse espaço às quartas-feiras, Silvana Mascagna, está de férias

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