O nosso carbono 14

iG Minas Gerais |

Uma campanha política abriga complexa cadeia de vetores. Um ponto em comum, porém, tem balizado as campanhas eleitorais ao longo dos últimos 60 anos. Desde aqueles tempos de grande carência logística para chegar às regiões até os dias atuais, os discursos elegem como alavanca o culto ao “eu”. A prevalência dos perfis pessoais sobre a representação coletiva, expressa por “nós”, decorre do caráter individualista que é marca da política nacional. Os principais atores individuais da cena política distinguiam-se por traços inconfundíveis, a denotar a admiração popular por figuras como o herói, o guerreiro, o pai dos pobres, o amigo do povo, o homem de palavra. Vargas vestia o manto de pai dos pobres; Juscelino Kubitschek era charmoso, sorridente e pé de valsa; João Goulart assumia a imagem de herdeiro de Getúlio, desfraldando a bandeira do trabalhismo; os presidentes da ditadura militar, sob a espada do “combate ao comunismo e aos movimentos subversivos”, tinham cada qual o seu estilo. No ciclo da redemocratização, José Sarney, com a imagem de cacique político; Fernando Collor, que fez a abertura econômica e saiu por impeachment do Congresso; o imprevisível Itamar Franco, fiador do Plano Real; Fernando Henrique Cardoso, elevado ao patamar de responsável pela estabilidade da moeda; Luiz Inácio Lula da Silva, o novo “pai dos pobres”; e Dilma Rousseff, sobre a qual se procura desenhar a imagem de faxineira da gestão pública. Por deliberada estratégia de criar um projeto de poder de longo prazo, sob a égide da bandeira socialista, o PT desprezou (e ainda despreza) o fato de que o convívio com as velhas práticas o tornou passível do fenômeno da mimese. Igualou-se a outros entes do espectro partidário, indo mais longe: foi apanhado com a mão na cumbuca. A Ação Penal 470 (também chamada de mensalão) jogou o partido no pântano da política. Portanto, o culto ao “nós”, que nos dois mandatos de Lula foi entronizado nos palanques, não chega hoje com prestígio para convencer as massas. Os últimos governos rebocaram com tanta argamassa as paredes da gestão que elas ameaçam abaular e desmoronar. Tanto o governo federal – com sua planilha de grandes obras – quanto os governos estaduais deverão passar pelo teste do nosso carbono social. Ou será que não se percebeu a existência de novo processo para medir o tempo (cronogramas) e conferir promessas? (Lembrando: os testes de datação de objetos da mais remota Antiguidade – para descobrir, por exemplo, a verdade sobre o Santo Sudário de Turim – são feitos com o carbono 14, um isótopo radioativo e instável que declina em ritmo lento a partir da morte de um organismo vivo). O nosso carbono 14, ou melhor, para 2014, é a onda centrípeta, das margens para o centro, com suas percepções e decepções da política. Engodos até podem continuar a engabelar as massas. Há, porém, um culto ao “nós” menos sujeito a firulas demagógicas. É o olhar mais agudo da sociedade sobre as tramoias da política.

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