O homem e seus duplos

Rodrigo Amarante desembarca sexta feira no Granfinos para lançar sua aguardada estreia solo, o disco “Cavalo”

iG Minas Gerais | THIAGO PEREIRA |

Elliot Lee Hazel/divulgação
Solo. Depois de ganhar o país com o Los Hermanos, e se divertir com o solar Little Joy, Amarante mostra disco personalista e etéreo
“O meu lugar, onde está?”, pergunta-se Rodrigo Amarante, na canção “Tardei”, encerramento de seu primeiro e aguardado disco solo. O músico vem de vários lugares: do Rio, de Janeiro, que o pariu, do Ceará, que o criou, do Los Hermanos, que o levou para o mundo, literalmente. Mas hoje sua identidade está por aí, se encontrando, nas canções que formatam “Cavalo”, álbum que o traz ao palco do Granfinos na sexta-feira. “Esse disco foi escrito no estrangeiro e acabou por virar um retrato dessa condição, fala das descobertas que fiz ao me retirar do meu contexto”, diz . Situando: após o fim dos Hermanos – ou uma pausa por tempo indeterminado, como preferem dizer – Amarante foi para os Estados Unidos. Lá, desfez-se da condição de músico famoso e voltou aos tempos de banda iniciante, rodando o país de furgão e firmando alianças musicais e afetivas que geraram um projeto com um ídolo (o Little Joy, do baterista Fabrício Moretti, também dos Strokes, um dos grupos prediletos de Amarante) e parcerias com músicos como Devendra Banhart (que promete um disco inteiro em parceria com o brasileiro) e Noah Georgesson – este último assina a produção de “Cavalo”. Exílio. Essas novas informações surtiram no músico uma possibilidade de autoanálise profunda. “Quando eu me separei da minha terra, senti como se tivesse me separado também de mim e com isso passei a enxergar um duplo que me espelha de fora, que eu vejo de longe e que me vê nesse novo contexto onde eu, por ser estrangeiro, também estou separado dos outros”, afirma. Esse duplo a que o músico se refere é o cavalo, que simboliza para as religiões afro-brasileiras o homem que recebe um espírito, o corpo que serve de canal para esse outro que se manifesta. “Eu comecei a enxergar também que no meu ato de escrever, na rotina de criar, eu parecia ter também dois em mim, veículo e veiculador, um que parece ser a pulsão inconsequente da inspiração e do deslumbre com o presente, responsável pelo mote, e outro que é o disciplinador, aquele que tem a responsabilidade de domar essa pulsão e transforma-la em algo de concreto, de explorar a possibilidade essa pulsão, chegar à glosa”, explica Amarante. “É o cavalo e o cavaleiro, o duplo e eu. Fazer esses dois entrar em acordo se tornou meu exercício de escrever, usar cada vez menos as rédeas, tornar esses dois um só”. Este galope artístico-existencial reflete-se em canções do exílio, cantadas em diversas línguas (francês, inglês, português). Músicas bastante conectadas com o fato de ele estar fora, em contato com outras fontes musicais, outras sonoridades e, principalmente, outros espaços. “Isso tudo”, ele concorda. “Mas é fundamentalmente um olhar de volta, um mapa que fiz pra traçar o percurso que fiz e me lembrar de onde venho pra poder seguir adiante”. Agenda O QUÊ. Show de Rodrigo Amarante, lançamento do disco “Cavalo” QUANDO. Sexta-feira, às 23h ONDE. Granfinos (av. Brasil, 236, Santa Efigênia) QUANTO. De R$80 a R$120

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