“Cavalo” mostra mudança de foco de Amarante

iG Minas Gerais | THIAGO PEREIRA |

Elliot Lee Hazel/divulgação
A sonoridade da estreia solo do músico é calcada em vazios
Quando se trata de algo ou alguém relacionado ao Los Hermanos, a plateia se configura em um vetor fundamental. Isso porque os shows do grupo ganharam uma espécie de dimensão mitológica, muito em função da devoção apresentada pela audiência, em que os refrões, as frases dos metais, as inflexões usadas pelos vocalistas eram repetidas em volume ensurdecedor, ocultando muitas vezes o som que saía dos palcos. A despeito da sensibilidade exposta nas canções, não era uma experiência delicada: eram momentos de passionalidade aguda, de visceralidade completa– e emocionante em muitas vezes. A estrutura de “Cavalo”, vazia, silenciosa, nos põe em dúvidas se, ao vivo, o solo de Amarante repetirá esse efeito, dúvida que será sanada sexta-feira, no Granfinos. Notícias sobre os primeiros shows realizados (no Rio e em São Paulo) dizem de silêncios vindos da audiência, de que o show vem transcrevendo com precisão a proposta estética do álbum. Inclusive sem espaço para canções de sua antiga banda. Amarante está satisfeito com o deslocamento das canções para o palco. “A gente toca o disco todo e quase que exatamente como está na gravação”, diz. “Foi um estudo tocar assim porque é uma outra dinâmica, não é um show de rock onde tudo é super alto, então a gente teve que achar o ponto pra cada música, reproduzir essas expansões e contrações que a música pede”, analisa o músico. Faz sentido. Canções como a abertura, “Nada Em Vão”, “Mom Non” e a bela “Irene”, se aproximam muitas vezes de sussurros, sua voz soando meio abafada, sopros que aparecem discretamente e se vão. Momentos como o delicioso balanço de “Maná”, são mais raros. “É também mais arriscado querer atrair do que correr atrás, mas é isso que eu quis fazer agora, voltar ao espaço e aos silêncios, à canção, é essa a graça desse disco e por consequência desse show”, diz. Ajuda também o fato de ele estar acompanhado no palco de velhos camaradas cariocas, como Gabriel Bubu, Gustavo Benjão e Rodrigo Barba. Como ele canta em “Ire- ne”, a busca é para que o eco não morra tão cedo. “É muito bom quando eu sinto o tamanho da sala quando canto, o teatro presente ouvindo e posso expandir e chegar até as pessoas com delicadeza, fazer o som ser algo que se busque no ar. “Assim, eu sinto que tenho uma relação muito mais direta e crua com a plateia, eu gosto muito disso e tem mudado muito a minha música essa experiência”. Essa crueza é detalhe marcante de “Cavalo”. Quando na rede, disponível para audições, muitos comentários diziam de um disco lento, vazio, etéreo até. Pergunto se foi uma busca, essa falta de rebuscamento. “Rebuscar quer dizer buscar de novo então buscar não rebuscar quer dizer procurar não exagerar na busca? Talvez você queira dizer “buscar a falta de rebuscamento” como quem diz buscar a falta de exagero, buscar o mínimo?”, corrige, correto. E traduz, com precisão: “Se isso, então sim. Eu busquei muito encontrar esse vazio que se ouve no disco, bati longas páginas até encontrar as palavras que achei fundamentais e minha busca só terminou com o abandono de tudo que julguei ser inútil. Eu cheguei ao mínimo considerando o máximo então me custou muita busca, talvez mais rabisco que rebusco, com sorte”. Talvez seja mesmo o feitiço da sorte, como ele canta em “Maná”, que venha ajudando Amarante a se encontrar. Mas “saber se amar”, e principalmente amar suas escolhas, lutar por elas, ajuda, e muito, no galope. como concluí a canção,

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave