Levir Culpi: "A incompetência da CBF dá vergonha"

Treinador criticou a CBF e a organização do futebol brasileiro, além de falar sobre o trabalho no Japão e o futebol japonês

iG Minas Gerais | GABRIEL PAZINI* |

REPRODUÇÃO/CEREZO OSAKA
Para Levir, seleção japonesa pode surpreender na Copa do Mundo de 2014
Com três passagens pelo Atlético e outras três pelo Cruzeiro, Levir Culpi é um velho conhecido dos torcedores mineiros. Pelo Galo, o treinador conquistou dois títulos mineiros e a Série B do Campeonato Brasileiro. Pela Raposa, Culpi faturou a Copa do Brasil, a Recopa Sul-Americana e dois Estaduais. No entanto, ele foi muito contestado, principalmente pela torcida celeste, por ter chegado em três finais de campeonato e não ter conseguido o título nas três. Curiosamente, Levir, em seis anos de Cerezo Osaka, com um intervalo entre o primeiro e o segundo semestre de 2012, não levantou uma taça sequer, mas é reverenciado pela torcida pelo bom trabalho que tem feito no clube. Nos seis anos de Cerezo, Culpi mudou a mentalidade do time e passou a apostar nos jovens jogadores, fator primordial para a agremiação, que tem pouco orçamento e sofre com problemas financeiros. Levir foi, ainda, um dos responsáveis pela revelação de cinco atletas que atualmente defendem a seleção japonesa, sendo que três deles jogam no futebol europeu e são destaques em seus clubes: Shinji Kagawa, do Manchester United (ING), que brilhou no Borussia Dortmund (ALE) e é o camisa 10 da seleção japonesa, Hiroshi Kiyotake, do Nuremberg (ALE), Takashi Inui, do Eintracht Frankfurt (ALE), e Hotaru Yamaguchi e Yoichiro Kakitani, que ainda estão sob a batuta de Levir no Cerezo e são destaques do time japonês. Outro fator interessante é que Kagawa, Kiyotake e Inui não deixaram o Cerezo ao mesmo tempo. Cada um deles foi protagonista do clube em determinado período e deixou o time de Osaka justamente neste momento de protagonismo, um depois do outro. Curiosamente, sempre que um talento deixou o clube rumo à Europa, outro jovem atleta surgiu e assumiu o papel de principal jogador. Com essa mudança de mentalidade, revelação constante de talentos e um bom trabalho, levando o Cerezo inclusive à disputa da Liga dos Campeões da Ásia, Levir conquistou a torcida e vive, no Japão, uma estabilidade nunca antes vivida em sua carreira. Apesar de tudo isso, o treinador vai deixar a equipe das cerejeiras de Osaka em dezembro e vai voltar para o Brasil. Em entrevista exclusiva ao Super FC , Culpi, além de explicar os motivos da saída do Cerezo e afirmar que, apesar de estar voltando ao Brasil, não pretende trabalhar logo de cara, criticou a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e a organização do futebol brasileiro, e também falou da vida e do futebol no Japão. Confira a segunda parte da entrevista com o treinador: Qual a sua opinião em relação ao calendário do futebol brasileiro? A gente passa vergonha quando vê como é a organização do futebol fora do Brasil. No Japão e na Europa, o calendário é muito melhor. No Brasil, falta peitar como estão peitando agora, não é possível manter uma qualidade física e técnica com esse calendário do Brasil. Se a CBF não tem competência para organizar um campeonato melhor, o jogador tem que parar. Existem formas de organizar um calendário melhor no Brasil, mas falta competência, o pessoal é muito incompetente. Temos os melhores jogadores do mundo, mas não temos o melhor campeonato do mundo por incompetência da CBF. Dá vergonha   Falando agora do futebol japonês, como tem sido a vida no Japão? Qual foi a maior dificuldade na adaptação? Nem sei o meu número aqui, como você pôde ver [risos] - o treinador tinha passado o número incompleto para a reportagem antes do primeiro contato -. Mas vai ser muito difícil me adaptar novamente ao Brasil, porque as coisas no Japão acontecem muito bem. A infraestrutura é excelente. A vida aqui no Japão é a vida que eu desejaria para o povo brasileiro. Desejo que a gente atinja o nível de vida daqui, mas é difícil, vai demorar pelo menos uma ou duas gerações. É complicado alcançarmos o nível de educação e sociedade dos japoneses. Tem que existir um choque educacional para atingirmos o nível de cidadania e sociedade que o Japão tem.   Conseguiu aprender japonês? Olha, fico até com vergonha, porque é muito tempo aqui, já moro aqui faz seis anos, mas aprendi só algumas palavras. Tenho aulas de inglês. Meu professor é torcedor do Cerezo Osaka, inclusive. O problema é que a gente fica muito preguiçoso com intérprete e o japonês é complicado, mas com o inglês me viro em todo o lugar, é uma língua universal. Mas eu tenho orgulho da minha filha, ela tá falando japonês, e bem melhor do que eu. Temos um restaurante japonês em Curitiba, o 'Azuki, Sabores do Japão', e ela se vira muito bem lá. Abri esse restaurante por causa da minha passagem pelo Cerezo, e tem dado certo. Esse ano, ele ganhou o prêmio de melhor restaurante japonês de Curitiba. Azuki representa prosperidade. Minha mulher achou legal e tá dando tudo certo.   O estilo de jogo no Japão é parecido com o europeu. O jogo é rápido e os times priorizam o estilo técnico, de toque e posse de bola e passes rápidos. Não à toa, muitos japoneses estão sendo contratados por clubes europeus nos últimos anos e fazem sucesso no Velho Continente. No Brasil, a revelação de craques continua, mas não são tantos os craques revelados como nas safras anteriores e as reclamações em relação ao estilo de jogo, partidas com o chamado "jogo feio" e o nível técnico baixo do Brasileirão, apesar do torneio ser muito equilibrado - nivelado por baixo - só aumentam. Como você avalia isso? O futebol evoluiu muito no Japão nos últimos anos e a organização é incrível. Existem algumas diferenças aqui. Você analisou certo, o sistema de jogo é mais semelhante ao europeu e muito diferente do nosso. E tem outra diferença também: as dimensões de todos os campos medem 100m x 75m, e o gramado é muito baixinho e sem buraco. É um tapete. No Brasil, nós temos campos de 110m x 75m com gramado alto e o jogo fica muito lento. Outro motivo é o sistema tático. No Japão, normalmente se joga no 4-4-2, variando para o 4-2-3-1, com duas linhas de quatro, às vezes de cinco no meio-campo, e a defesa não sobra. As linhas jogam próximas e o atacante tem que voltar para ajudar. Além disso, todos os times jogam no ataque, indo para cima. Já no Brasil, nem todos os times jogam assim. Os times pequenos, por exemplo jogam na defesa, e aqui no Japão, não. Aqui, os dois times tem chance de ganhar. No Japão, quando você faz um coletivo contra time de faculdade, você não sabe se vai ganhar. Claro que prevalece a técnica e essas coisas todas, e você acaba ganhando a maioria das vezes, mas o sistema de jogo faz diferença. Os times ficam mais iguais. Outra questão também são as faltas. Eles não marcam (risos). Não marcam qualquer falta e não adianta chorar. O "pau canta" e não tem falta. A média aqui é de 10/12 faltas por jogo.   O futebol japonês cresceu muito desde a profissionalização do esporte no país. O estilo é bonito, veloz, usa troca de passes rápidos, joga com a posse de bola e é um estilo ofensivo e envolvente. Muitos jogadores fazem sucesso em grandes clubes e ligas na Europa e os Samurais Blues são soberanos na Ásia, mas ainda falta um grande resultado internacional. Acha que o futebol japonês pode sonhar com voos mais altos nos próximos anos? A seleção tem velocidade e ótima técnica, mas sofre muito na força física. A bola aérea é um grande problema. Os dois laterais são baixos e só um volante é alto. Se vão três jogadores para cabecear, eles atropelam os japoneses. Mas pela técnica, o Japão pode surpreender. Tecnicamente, eles criam ótimas jogadas e passam bem a bola. O problema é a bola aérea e a força física, mas eles podem surpreender na Copa do Mundo. A qualidade técnica do Japão é ótima. E eu fico muito feliz porque temos cinco jogadores na seleção: Shinji [Kagawa], Kakitani, Hotaru [Yamaguchi], Kiyotake e Inui. É algo bem bacana.   Você faz um grande trabalho no Cerezo. Revelou Shinji Kagawa, Hiroshi Kiyotake e Takashi Inui. Atualmente, o Yoichiro Kakitani faz uma temporada excelente, ganhou espaço na seleção e está sendo especulado em clubes europeus. O Cerezo é o grande revelador de talentos do futebol japonês nos últimos anos. Qual é o segredo desse sucesso do Cerezo, pelo menos em relação à revelação? E como você manteve o time na elite nipônica, com boas campanhas, nos últimos anos - nesta temporada, o time está bem na J-League, o Campeonato Japonês, brigando por vaga na Liga dos Campeões da Ásia e está avançando na Copa do Imperador -, mesmo perdendo jogadores importantes? O Cerezo é o 14º time do campeonato em orçamento financeiro. Isso é um problema, e por isso não conseguimos manter os meninos por muito tempo. Se estivéssemos com esses meninos, seríamos campeões, mas é difícil porque os meninos também querem sair para Europa cedo. Não acredito em sorte, azar, não sei se é um dom ou o destino, mas sempre passam muitos bons jogadores jovens pela minha mão. Não sei bem, talvez seja uma mistura de sorte com competência que cruza o caminho da gente. Falo sempre com os garotos que comigo não tem isso de idade e coloco eles pra jogar. E olha, aqui tem um problema que respeitam muito os mais velhos até para jogar futebol, mas tenho colocado os garotos e tem dado certo.   Como você montou o estilo do Cerezo? Se adaptou ao estilo japonês ou levou um pouco do estilo brasileiro? Uma mistura dos dois? Dei muita motivação aos jovens e apostei neles, e tem dado certo. Hoje, o Cerezo é visto como time revelador. A mentalidade vencedora e de sempre buscar o gol e as vitórias. A torcida do Cerezo tem crescido muito também. O único problema do Cerezo é o fator financeiro, isso pesa para ganhar títulos.   O que acha da mudança do sistema de disputa do Campeonato Japonês, que vai ser disputado em dois estágios a partir de 2015? Esse sistema não é tão injusto como foi no Brasil. Se você chega em primeiro, você já está na final do torneio. Aqui no Brasil eu fiquei p.... Cheguei em primeiro com o Cruzeiro [no Campeonato Brasileiro de 1996], mas depois caí fora porque perdi para o oitavo [que era a Portuguesa], que ficou bem atrás da gente. Fizemos um jogo e ficamos de fora. É muito injusto. Acho melhor a disputa por pontos corridos, igual é agora no Brasil. Aqui, no entanto, preserva-se mais o primeiro colocado. A tabela é mais justa. O problema é que nessa temporada estão perdendo um pouco de dinheiro e estão tentando recuperar. Não acho que é o melhor sistema, mas o playoff é sempre mais emocionante. Nos outros esportes, o basquete, por exemplo, tem playoffs. A diferença é que no basquete são sete jogos, aqui, vai ser um jogo só, e se você perder numa bola perdida, já era. Mas acho que dá para fazer. E queira ou não queira, os playoffs atraem muito a torcida e a imprensa. O maior problema e causa dessa mudança de regulamento é financeiro. *com supervisão de Leandro Cabido

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