O meu melhor amigo

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Não estou mais com 8 ou 10 anos e acabo de entrar na universidade. Lembranças surgem e somem na minha cabeça. Hoje me lembrei do Nelson: “Genial!” – ele disse, perto de mim, sobre um filme que estava passando. Acho que foi “A Aventura”, de Antonioni. Ergui os olhos e vi, pela primeira vez, aquele que virou meu melhor amigo. Eu me sentia deslocado entre tantos colegas já de terno e gravata, prontos para a vida de advogados. Nelson me pareceu irmão de infortúnios, de loucura, eu que odiava as aulas de direito num país onde a lei (eu já sentia) era uma piada. Vivíamos entre duas revoluções: a revolução política e a revolução sexual. A pílula ainda não tinha chegado, mas já havia um clima de temerosa liberdade: os “amassos” eram mais fortes nos automóveis, os vestidos eram mais curtos e sentíamos que em breve amor e sexo seriam diferentes. As meninas deixavam quase tudo, mas enguiçavam na porta dos apartamentos – naquela época, a gravidez solteira era doença venérea. Eu tive uma namorada, não mais virgem, que nunca me permitiu repetir o feito do “ex”, na ilusão de “reconstituir” a inocência perdida. Uma outra se entregava loucamente, de olhos em alvo, com gemidos de angústia, simulando um “desmaio” que a absolvia do consentimento, como se não fosse ela que estivesse ali. Mas, Nelson, esse se apaixonava. Seus namoros eram de pierrô – mãos dadas, beijos trêmulos. Ele não era feio, mas sua calvície, precoce, sua inteligência esmagavam as meninas em conversas infinitas, sua leve obesidade em calças de tergal herdadas do pai, sem a menor vaidade masculina, afastava possíveis namoradas. Nelson não era gay. Ao contrário, mostrava interesse demais pelas moças e não exibia o típico distanciamento viril, para se fazer desejado. Em conversas ansiosas, elas percebiam sua insegurança denegada, em sua simpatia percebiam o medo e, assim, ficavam suas amigas, mas nunca amantes, enquanto os cafajestes juvenis levavam-nas para mãos nos peitos, sutiãs rasgados, calças arriadas nos bancos de trás dos carros. Nossa amizade crescia na fome de literatura. “Quero fazer arte séria!”, ele dizia, berrando poemas nas noites estreladas, com sua voz arfante: “April is the cruellest month (...) mixing memory and desire! Genial! Genial!”. Um dia, chegou a pílula e, com ela, amores famintos, os motéis, orgasmos nas noites, os biquínis, os peitos de fora, o fim da aura de pureza ou inocência, beijos de língua, corpos nus entrelaçados. Nelson apareceu com uma namorada. Era uma garota de roupa muito justa, levemente estrábica, uma sensualidade enleante, visível orgulho de seus seios empinados, parecendo gostar muito do Nelson, que a cobria de gentilezas, beijos leves, abraços apertados e uma alegria imensa no rosto. Estava mais adulto, confiante. “E ai?” – perguntei – “cabaço?” Ele ficou encabulado. “Não... Teve um namorado...” “Então, o virgem é você!” – sacaneei. Ele riu alto e arfou: “Isso! Rimbaud: ‘Par delicatesse, j’ai perdu ma vie! Genial! Genial!?”. E aí, sumiu durante um tempo. Vivia nos balcões dos cinemas, aos beijos sem fim, sob a luz vigilante dos lanterninhas. Passaram-se uns meses e, um dia, ele me procurou de novo. Estava mudado. Disse que ia trabalhar num escritório, usava um terno cinzento e uma gravata torta e seus olhos mostravam uma tristeza imensa. Estranhei quando me levou à sua casa e me deu sua coleção dos “Cahiers du Cinema”, amarelos, que até hoje guardo. “Que é isso, Nelson? Os Cahiers?”, peguntei. “Já li tudo, pode levar...”, ele disse, como se desistisse de alguma coisa. Na sala, a empregada preta servindo café, um pai gordo e tristíssimo vendo a televisão em preto e branco, a mãe lendo a “Manchete”, tudo sob luzes mortiças e quadros feios, móveis escuros, cortinas ventando como velas de um barco parado. Entendi de onde vinha a ansiedade do Nelson, querendo respirar a vida. Na porta do elevador, perguntei: “E aí? E a namorada?” Seu rosto ficou sombrio. “Esta aí, estamos nos vendo...” Ele sumiu de novo e fui tocando a vida. Um dia, a garota (Mariana, creio) me apareceu no pequeno apartamento de meu pai em Copacabana, para onde eu fugia. Ela entrou agitada, sem cerimônia, cruzou as pernas fumando e falando sem parar, elogiando muito a bondade do Nelson, sua inteligência, mas acabou dando a entender que a relação estava impossível, que não dava mais, que ele era o máximo, mas... “Mas, o quê..?” “Não dá mais... Ele não consegue, fica chorando com as mãos no rosto, chorando na beira da cama, dizendo que não consegue, chorando nu, sem parar". Mariana caiu em prantos e se agarrou em mim, soluçando. Seus seios (seu orgulho) arfavam contra meu corpo e suas lágrimas me molhavam o rosto, que ela começou a beijar febrilmente até a cama onde caímos naquela tarde chuvosa. Foi tudo muito intenso e rápido e ela saiu fumando nervosamente. Não sabia por onde andava o Nelson, e isso me aliviava, pois ele trabalhava mesmo num escritório de advocacia na Cinelândia. Passaram uns meses e foi então que tive meu primeiro contato com a tragédia. Pelo telefone, me chega a notícia de que Nelson tinha morrido. O lanterninha o encontrou imóvel, com seu terno cinzento. Ele morrera do coração silenciosamente, aos 23 anos, dentro de um cinema, sozinho. Eu nunca tinha visto um morto e, nublado por minhas lágrimas, lá estava seu rosto pálido rodeado de flores. A desgraça era absurda e sua família gemia de dor, sem entender como aquilo podia ter acontecido. As pessoas me olhavam espantadas, porque eu chorava abertamente, de rosto erguido para todos verem e experimentava um estranho prazer em deixar as lágrimas rolando sem parar, pois eu queria que todos me vissem, eu me orgulhava do pranto, quase vergonhoso, excessivo. Muitos estranhavam tanta dor. Creio mesmo que exagerei conscientemente meus soluços. Não sabia por que chorava tanto, mas sabia que tinha de chorar. Hoje, me lembrando, entendo tudo, claro. Nelson morrera assistindo a “Palavras ao Vento”, de Douglas Sirk, com Lauren Bacall e Rock Hudson, em reprise no Pathé. “Genial!” – ele teria dito se me encontrasse depois. Texto publicado originalmente em 22/11/2011.

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