Viagra pode ajudar problema ligado à anemia falciforme

Estudo da Unicamp mostra que dosagem específica da droga atuaria no caso

iG Minas Gerais |

São Paulo. Um dos possíveis efeitos adversos de drogas contra a disfunção erétil é o priapismo – ereção dolorosa e prolongada que pode causar danos irreversíveis ao tecido peniano. Um estudo em andamento na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostrou que, no caso de pacientes com anemia falciforme, por mais contraditório que seja a princípio, medicamentos como o Viagra (citrato de sidenafila) podem ser uma boa opção para tratar o problema. “O priapismo é uma complicação comum entre homens com anemia falciforme, mas o mecanismo que leva ao problema ainda não está bem esclarecido. Já se sabe que esses pacientes apresentam no sangue uma quantidade menor de óxido nítrico, que é um agente vasodilatador e o principal mediador da ereção peniana. O esperado, portanto, seria uma maior dificuldade de ereção”, explica Carla Penteado, coautora de um artigo publicado no “The Journal of Sexual Medicine”. Mas um estudo feito nos Estados Unidos mostrou que a enzima fosfodiesterase tipo 5, responsável pela degradação do óxido nítrico e por restaurar o processo de ereção peniana, também está diminuída em camundongos geneticamente modificados com uma condição muito semelhante à anemia falciforme. “Isso sugere que, embora esses pacientes tenham uma menor biodisponibilidade de óxido nítrico, a degradação desse agente vasodilatador também é menor e, portanto, sua concentração no sangue e nos tecidos acaba ficando alta o suficiente para prolongar a ereção peniana, levando ao priapismo”, explica. Posteriormente, investigações feitas por Mário Angelo Claudino e Edson Antunes, do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, mostraram que a via de sinalização (complexo sistema de comunicação que coordena as atividades celulares) do óxido nítrico está aumentada na musculatura lisa de camundongos com anemia falciforme. Assim, drogas capazes de intervir na via de sinalização do óxido nítrico, como o Viagra, podem ajudar a prevenir o priapismo em pacientes com anemia falciforme. O diferencial é a dosagem da droga usada. “Uma das propostas é usar o Viagra, mas de maneira crônica e em quantidade bem menor do que a indicada para o tratamento da impotência sexual”, disse. Contínuo. Segundo a pesquisadora, há trabalhos na literatura científica que sugerem que medicamentos como o Viagra, usados de maneira contínua, podem restabelecer os níveis da enzima responsável pela degradação do óxido nítrico. “Existem estudos em andamento nos EUA avaliando os efeitos do Viagra e drogas similares no tratamento do priapismo recorrente ou stuttering”, conta Carla. As informações são da agência de notícias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).   Talassemia Caso. As pesquisas da Unicamp também estão focando outra doença hereditária que atinge os glóbulos vermelhos, a talassemia, mais comum entre descendentes de povos da região do mediterrâneo. Medicamentos já utilizados aliviam sintomas da fase aguda São Paulo. Outras descobertas realizadas na Unicamp, em projeto coordenado por Fernando Ferreira Costa, do Centro de Hematologia e Hemoterapia (Hemocentro) da universidade, estão abrindo novas perspectivas para o tratamento da anemia falciforme e de suas complicações – que afetam cerca de 50 mil pessoas no Brasil, segundo a Agência Fapesp. Atualmente, a hidroxiureia é uma das drogas mais usadas no tratamento da anemia falciforme por ser capaz de aumentar a produção de outro tipo de hemoglobina, conhecida como hemoglobina fetal (mais presente no período de vida uterina). O medicamento, normalmente, é usado de forma crônica pelos doentes, mas em uma das linhas de pesquisa coordenada por Nicola Amanda Conran Zorzetto, do Hemocentro da Unicamp, os cientistas mostraram que a droga também ajuda a aliviar sintomas da fase aguda da doença, atualmente sem opção terapêutica.

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