Frei Chico dá voz ao saber do povo

Com tiragem inicial de 5.000 exemplares, publicação aborda religiosidade popular

iG Minas Gerais | Ana Elizabeth Diniz |

FERNANDA CARVALHO / O TEMPO
Lançamento. Frei Chico exibe o palhaço que carrega amarrado no cordão das vestes franciscanas, símbolo do seu lado anarquista
Um palhaço de pano, praticamente um clone, estava preso ao cordão que amarra a túnica franciscana de Francisco Van Der Poel, popularmente conhecido como frei Chico, holandês, de 73 anos, sendo 46 vividos no Brasil e dez no Vale do Jequitinhonha. Risonho, simples e comunicativo, ele recebia a todos com um abraço durante o lançamento do “Dicionário da Religiosidade Popular”, que tem tiragem inicial de 5.000 exemplares, 1.150 páginas, 8.570 verbetes, 6.433 notas de rodapé e 8,5 milhões de letras. Números superlativos para um trabalho grandioso que consumiu 40 anos de entrega, paciência e abnegação. “Esse palhaço pendurado no cordão é meu lado anarquista; tem o oficial e tem o anarquista e eles não podem se separar. Ele não sai, não, fica aqui. É igual ao bobo da corte que não é ameaça para o rei, porque ele não quer o poder, mas pode dizer o que acha que está errado e brincar. É um pouco isso”, diverte-se o franciscano. Frei Chico é membro do corpo docente do Instituto Jung, em Belo Horizonte, do corpo docente do Instituto Santo Tomás de Aquino, é formado em teologia, na Holanda, licenciado em filosofia, em São João del Rei e já publicou seis livros. “Sou frei, mas fui liberado para o estudo da cultura popular. Como estrangeiro, desejava conhecer o povo do Vale do Jequitinhonha, onde fui parar, vivi durante 10 anos e aonde volto até hoje”. O povo do Vale o fascinou definitivamente, a ponto de buscar ali, entre eles, na cultura, sabedoria e religiosidade, os elementos para compreender melhor o país que adotou de coração. Desse convívio, das muitas andanças e audiências populares, ele foi desvendando o universo religioso popular, suas rezas, danças, festejos, simpatias, feitiços, rituais, saberes de um caldeirão de sabedoria perene. Frei Chico doou os direitos autorais de seu dicionário para a Ordem Franciscana em Minas. O livro traz ainda o trabalho de Maria Lira Marques Borges, “mulher, mestiça, pintora, cantora, pesquisadora, sempre pronta para esclarecer o pensar e o sentir do povo sofrido do Vale, que desenhou com terras do Jequitinhonha as iluminuras que iniciam cada nova letra do dicionário”, diz. Simplicidade. O Jequitinhonha mudou o modo de pensar do franciscano sobre a verdadeira religião. “Aprendi que quem pretende entender a religiosidade popular e ter o direito de explicar seus significados há de se tornar simples com os simples e pobre com os pobres” afirma o religioso que, ao sair de Araçuaí, havia anotado 15 mil folhas. “Eu tinha consciência de que isso era representativo da cultura do povo. Era um começo, uma visão mais ou menos completa de vários aspectos de uma cultura local, o que me permitiu avaliar livros de cultura popular de outros lugares. Percebi que há muito preconceito, mas, apesar disso, temos que ser capazes de distinguir os elementos de valor que cada escritor apresenta sobre o contexto do país. Eu aprendi isso em Araçuaí. É muito impressionante quando o povo acredita na gente, porque ele quer ensinar. Eu falava: eu quero aprender com vocês. E coisas bonitas aconteciam”, relembra o franciscano. Segundo ele, em um primeiro momento, vem o pensamento de que muitas coisas que o povo tem não combinam com a cultura que se considera oficial, a da escola, da televisão, da igreja. “Aos poucos você vai aprender que é possível ser diferente. O índio, o negro, o holandês, o chinês têm uma experiência religiosa que pode ser diferente das formas culturais que são criadas nas comunidades para celebrar um culto. Essa iniciativa de um deus que é grande – nós somos pequenos – produz religiões diferentes, mas legítimas, tanto que no dicionário o candomblé recebe o mesmo respeito que a Igreja Católica. Eu entendo que religião sem um deus vivo não faz sentido”. Vivência. Frei Chico cita um exemplo. “Um padre vai celebrar missa em uma comunidade rural do Vale do Jequitinhonha e leva folhetos impressos em São Paulo, lê de cabo a rabo e diz que celebrou. Eu duvido do significado dessa celebração, porque o deus vivo que o povo conhece ele encontra na sua vida”. Para o franciscano, não se pode dizer que uma instituição coincide com a verdadeira religião. “Juntos procuramos ter uma religião, uma ciência verdadeira. As instituições são humanas e têm que ser respeitadas como autênticas buscas, mas a revelação é Deus que dá. As instituições mudam, pode ser que a nossa religião tenha que se adaptar à atualidade do Deus vivo, mas Ele não muda, e é tão grande que nós o entendemos só um pouco”.

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