Levir Culpi afirma que só volta a trabalhar por "propostas especiais"

Treinador rejeitou uma oferta do Cruzeiro no ano passado e vai deixar o comando do Cerezo Osaka em dezembro

iG Minas Gerais | GABRIEL PAZINI* |

Reprodução/Facebook
Levir faz um bom trabalho e é reverenciado no Japão, apesar de não ter conquistado títulos
Com três passagens pelo Atlético e outras três pelo Cruzeiro, Levir Culpi é um velho conhecido dos torcedores mineiros. Pelo Galo, o treinador conquistou dois títulos mineiros e a Série B do Campeonato Brasileiro. Pela Raposa, Culpi faturou a Copa do Brasil, a Recopa Sul-Americana e dois Estaduais. No entanto, ele foi muito contestado, principalmente pela torcida celeste, por ter chegado em três finais de campeonato e não ter conseguido o título nas três. Curiosamente, Levir, em seis anos de Cerezo Osaka, com um intervalo entre o primeiro e o segundo semestre de 2012, não levantou uma taça sequer, mas é reverenciado pela torcida pelo bom trabalho que tem feito no clube. Nos seis anos de Cerezo, Culpi mudou a mentalidade do time e passou a apostar nos jovens jogadores, fator primordial para a agremiação, que tem pouco orçamento e sofre com problemas financeiros. Levir foi, ainda, um dos responsáveis pela revelação de cinco atletas que atualmente defendem a seleção japonesa, sendo que três deles jogam no futebol europeu e são destaques em seus clubes: Shinji Kagawa, do Manchester United (ING), que brilhou no Borussia Dortmund (ALE) e é o camisa 10 da seleção japonesa, Hiroshi Kiyotake, do Nuremberg (ALE), Takashi Inui, do Eintracht Frankfurt (ALE), e Hotaru Yamaguchi e Yoichiro Kakitani, que ainda estão sob a batuta de Levir no Cerezo e são destaques do time japonês. Outro fator interessante é que Kagawa, Kiyotake e Inui não deixaram o Cerezo ao mesmo tempo. Cada um deles foi protagonista do clube em determinado período e deixou o time de Osaka justamente neste momento de protagonismo, um depois do outro. Curiosamente, sempre que um talento deixou o clube rumo à Europa, outro jovem jogador surgiu e assumiu o papel de principal jogador. Com essa mudança de mentalidade, revelação constante de talentos e um bom trabalho, levando o Cerezo inclusive à disputa da Liga dos Campeões da Ásia, Levir conquistou a torcida e vive, no Japão, uma estabilidade nunca antes vivida em sua carreira. Apesar de tudo isso, o treinador vai deixar a equipe das cerejeiras de Osaka em dezembro e vai voltar para o Brasil. Em entrevista exclusiva ao Super FC , Culpi explicou os motivos da saída do Cerezo e afirmou que, apesar de estar voltando ao Brasil, não pretende trabalhar logo de cara. Confira a primeira parte da entrevista do treinador: Você faz um bom trabalho no Cerezo, tem o carinho da torcida e o lado financeiro é muito bom, apesar disso, você não vai ficar no time no ano que vem. Por que? Já são seis anos aqui. Fechou-se um ciclo. A minha intenção é voltar para o Brasil e lançar o livro "Um burro com sorte", que conta a minha história, desde o tempo em que eu jogava. O livro conta tudo, até minhas ideias sobre política e religião (risos). É meio sem pé nem cabeça e vai ser lançado já em janeiro, deve ter umas 250 páginas. Até o Domênico [Bhering, assessor de comunicação do Atlético] tem me ajudado nesse livro para eu lembrar de algumas histórias. E não poderei estar treinando algum time, pois pretendo estar trabalhando nesse lançamento. E outra coisa: 100% da renda do livro vai para o Hospital de Caridade Pequeno Príncipe, de Curitiba, que é um hospital muito bacana, que faz um trabalho muito bonito.   Você pretende se concentrar no lançamento do livro mesmo que surjam ofertas de alguns clubes? Pretendo voltar para o Brasil no primeiro semestre e não trabalhar nesse período. Só vou trabalhar se acontecer algo muito especial.   Já chegaram propostas? Nenhum convite chegou.   Você saiu do Cerezo e ficou seis meses no Brasil. Por que voltou ao Cerezo apenas seis meses depois, após o Sérgio Guedes deixar o clube? Financeiramente era um ótimo negócio e quis ajudar o clube a evitar o rebaixamento. O time estava afundando e me chamaram de volta. Conseguimos e renovaram o contrato para essa temporada, mas a ideia era contratar jogadores, e de seleção brasileira. Não falaram em nomes, mas queriam jogadores badalados, mas acabaram não vindo. Foi mais um sonho que fugiu da realidade, principalmente da realidade financeira. Acho que eles não sabiam o preço de um jogador de seleção brasileira. Acabou que trouxeram o Edno, o Fábio Simplício e outros brasileiros. Mas acho que nesse próximo ano vão trabalhar só com japoneses. Acho que o ciclo de brasileiros aqui acabou. Os brasileiros aqui não estão indo muito bem, e isso até pesou para que não queiram renovar com eles.   No ano passado, você recusou uma proposta do Cruzeiro quando estava no Brasil. Por que? Não estava querendo trabalhar naquele momento. Não foi nada relacionado com o time, era que eu não queria trabalhar mesmo. É o mesmo caso agora, em janeiro. Para eu aceitar alguma proposta, só se for algo muito especial.   O ano é espetacular para os dois mineiros. O Atlético conquistou a Libertadores e vai jogar o Mundial, enquanto o Cruzeiro é o iminente campeão brasileiro. Por conta disso, criou-se uma discussão não só em Minas Gerais, mas também em âmbito nacional, sobre qual dos dois mineiros tem o melhor time. Você tem acompanhado os jogos? Qual time acha melhor? Estou muito feliz. O Cuca foi meu jogador! O Kalil trabalhou comigo e o Marcelo [Oliveira] é meu amigo, vivia no meu restaurante japonês lá de Curitiba. Fico muito feliz pelos dois times e posso falar isso sem fazer média porque trabalhei três vezes em cada clube e tenho amigos em ambos. Vi alguns jogos, mas não consigo acompanhar todos, e vendo de longe, como tenho visto, não consigo ter uma dimensão dessas para mensurar isso, mas felizmente, ninguém tem a resposta exata no futebol para dizer isso. A gente se baseia em parâmetros que às vezes não são verdade, como os números, por exemplo. É muito arrogante e vago eleger qual time é melhor.   Você disse que aceitaria uma proposta apenas se fosse algo especial. Se o Atlético e o Cruzeiro fizessem ofertas especiais, qual clube você escolheria? Sempre que você recebe propostas, passa um filme na sua cabeça e você fica imaginando como vai ser. Normalmente, a gente pensa que time pronto vai dar certo e que time ruim vai dar errado, mas nem sempre é assim. Precisamos ter o feeling, e depende muito, não adianta fazer muita conta e muita previsão para aceitar um convite. O futebol é imponderável. Já peguei time que pensei que fosse cair e time que pensei que fosse ser campeão e não aconteceu o que eu esperava. Tem que ver o que o coração manda e um abraço.   Você trabalharia em Curitiba? No comando do Atlético-PR ou do Coritiba? Não. Imagine eu sendo derrotado em um Atlético-PR x Coritiba, o que pode acontecer com os restaurantes? Pensei bem e não tem chances. Curitiba é só para me divertir e encontrar minha família.   Quando o Ney Franco deixou a seleção brasileira sub-20 e a coordenação das categorias de base da CBF para assumir o São Paulo, você foi procurado para assumir os cargos. Por que não aceitou? É verdade isso e fiquei muito feliz com a lembrança. Foi o único convite que me deixou na expectativa e motivado, porque comecei a pensar. Eu fui jogador sub-20 do Brasil, e tenho uma lembrança muito gostosa, fui campeão em Cannes, na França, e fomos campeões em cima da Argentina. Eu era capitão do time. Podia fechar um ciclo: eu comecei por lá e poderia terminar por lá. Cambaleei, mas depois acabou que o Mano [Menezes, técnico da seleção brasileira na época, que fez o convite] caiu e não deu certo. Eu liguei para o Mano e agradeci, porque nunca tive contato com ele, conversamos raras vezes, e fiquei muito feliz com a lembrança dele, mas infelizmente não deu certo.   Você queria assumir o cargo mas não teve tempo porque o Mano caiu e a direção da CBF queria outro nome, foi isso? E esse é um exemplo de proposta especial? Sim, esse é um exemplo. Fiquei muito feliz. É como disse, poderia fechar um ciclo no lugar onde o ciclo começou, mas infelizmente não deu certo. Pois é, o problema foi que o Mano caiu antes, e por isso acabei não assumindo.   *com supervisão de Leandro Cabido

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