A voz e o personagem

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Ao ouvir nesta semana entrevista de um político numa rádio, recordei que sempre que isso se repete me lembro de um personagem que ficou conhecido na televisão brasileira. Se eu disser que é da lavra do Chico Anysio você tentará deduzir que falo do deputado pernambucano Justo Veríssimo, mas errou. Não seria tão simplista. A voz que identifico em certo candidato a presidente da república é a do Paulo Maurício Azambuja, um malandro carioca, ex-jogador de futebol e sambista. A diferença na maneira de falar do político é pequena, apenas com a entonação um pouco mais branda do que, com razão, Chico Anysio, entornava seu personagem, marcado por bordões como “Tô contigo e não abro!” ou “Arrebenta a boca do balão!” Curioso porque também quando escuto certos pronunciamentos de um prefeito me vem à mente a figura do ator Paulo Gracindo interpretando Odorico Paraguaçu em “O Bem-Amado”, a magistral peça escrita por Dias Gomes que foi sucesso na TV. O que me intriga é essas semelhanças ocorrerem hoje em personagens passados. Afinal, os autores não se inspiram na realidade para criarem seus enredos? Mas cronologicamente é impossível dizer que Chico Anysio ou Dias Gomes parodiaram esses políticos atuais. Ou será que esses políticos é que assumiram inadvertidamente trejeitos desses personagens? É outra hipótese meio maluca porque ambos não foram na televisão o que se pode chamar de exemplos ilibados, como é costume se gabar na política. Não seriam modelos a serem imitados. Não tive ainda a oportunidade de saber se o nosso Saulo Laranjeira se inspirou em um político específico para criar o seu também impagável Deputado João Plenário, com seu politiquês à toda prova para demonstrar que falar não significa que ele vai fazer de fato o que promete. Creio que Saulo faz uma mesclagem dos estereótipos políticos. Já sobre Odorico Paraguaçu, escreveu-se que Dias Gomes criou a peça, em 1962, baseado num caso verídico no Espírito Santo, sobre um prefeito que se elegeu com a promessa de construir um cemitério na cidade que, assim, se livraria, da humilhação de ter que enterrar seus mortos no município vizinho. Aconteceu que, depois do cemitério pronto, ninguém morria para a inauguração, até que o próprio prefeito foi assassinado, entronado a primeiro defunto. Na trama do dramaturgo, o prefeito ganhou peculiaridade por seu vocabulário originalíssimo, como frases como “deixemos de lado os entretantos e vamos direto aos finalmentes” ou “esta obra entrará para os anais e menstruais de Sucupira e do país”. No caso do Azambuja, ele é declaradamente inspirado no ex-jogador de futebol do América-RJ e ex-técnico, Paulo Maurício de Oliveira. Na década de 1970 Chico frequentava treinos do América quando conheceu Paulo, com seu tipo de quem fala muito, gesticula e sempre tem histórias. O inesperado é que mais tarde o verdadeiro Paulo Maurício tornou-se técnico no Ceará, Estado natal de Chico Anysio, treinando o Quixadá e também o time da terra natal do humorista, o Maranguape. Nas três situações, do Dias Gomes, do Chico Anysio e do Saulo Laranjeira, é muito diferente do que uma mera paródia ou caricatura farsesca de uma personalidade pública, o que muito se vê em programas de humor. O que eles fazem é criar seus próprios tipos. Enfim, criador ou criatura, essas duas vozes da cena política contemporânea estão para mim associadas aos personagens. O que não dizer que eu levo sempre ao burlesco ou ao pejorativo o que eles dizem. Relaciono isso mais ou menos ao peso do tom de veracidade no que dizem. Se são inverossímeis as suas declarações, quanto mais, mais lembro-me de Azambuja e Odorico.

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