Motorista acusado pela morte de JK vem a Minas “Apontaram o dedo na rua como se fosse assassino”, diz

Depoimento está marcado para hoje, às 10h, na Assembleia Legislativa. Josias Nunes de Oliveira disse ter rejeitado oferta para assumir a culpa

iG Minas Gerais | Lucas Pavanelli |

ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO - 22.8.1976
Acidente em 1976 matou o ex-presidente JK e o motorista dele
A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas vai ouvir hoje o ex-motorista da viação Cometa, Josias Nunes de Oliveira, 69. Peça-chave no episódio da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, Josias pode ajudar a elucidar o que, na época, foi divulgado como acidente automobilístico e que, agora, ganha ares de “atentado político” causado pelo regime militar. A audiência pública, marcada para as 10h, acontece pouco mais de um mês após Josias dar seu depoimento à Comissão Municipal da Verdade “Vladimir Herzog”, instalada pela Câmara de São Paulo. “Vou falar o mesmo que já disse aqui aos vereadores”, disse Josias, sem querer adiantar os detalhes da audiência de hoje. Em São Paulo, por quase duas horas, o ex-motorista que foi acusado publicamente de ser o responsável pelo acidente relembrou a tragédia e disse ter recebido uma oferta de dinheiro caso assumisse a culpa pelo acidente. “Disseram que, se eu falasse que era culpado, aquele dinheiro era meu. Era uma mala cheia de pacotes de notas grandes. Disseram que, se não aceitasse, me bateriam. Não peguei. Eles foram embora com a mala. Não tive culpa. A única coisa que fiz foi parar para socorrer as pessoas que estavam no carro”, disse a O TEMPO , após a audiência na capital paulista. História. Em 22 de agosto de 1976, JK, então senador por Minas Gerais, viajava do Rio para São Paulo pela rodovia Presidente Dutra. Próximo à cidade de Resende (Rio de Janeiro), segundo Josias, o Opala de JK, dirigido por seu motorista Geraldo Ribeiro, ultrapassou, em alta velocidade, o ônibus pela direita, invadiu a pista contrária e se chocou contra um caminhão. Josias desceu do ônibus e socorreu JK e seu motorista, que morreram no local. Além do depoimento de Josias, outra peça pode ajudar a elucidar o episódio. Um pequeno fragmento metálico que foi encontrado na cabeça do motorista de JK e apontado por um laudo em 1996 como sendo de um prego do caixão pode se tratar, na verdade, de uma bala de arma de fogo – o que poderia confirmar que a morte do ex-presidente teria sido, de fato, um atentado. No entanto, o Instituto Médico Legal de Minas Gerais (IML) procura pelo objeto há mais de dois meses. Aos 69 anos de idade, o ex-motorista da viação Cometa Josias Nunes de Oliveira vive hoje em um asilo na cidade de Indaiatuba, no interior de São Paulo. Em entrevista a O TEMPO , Josias disse que a execração pública pela qual passou, ao ser apontado como responsável pelo acidente que matou o ex-presidente Juscelino Kubitschek, acabou com sua vida. “Perdi o emprego, não consegui arrumar outro fácil. Minha família me abandonou. Me apontavam o dedo na rua como se fosse um assassino”, disse. Depois de ter sido incriminado publicamente, Josias respondeu a um processo judicial, ao qual foi absolvido em 1977. 

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