Nem os ingredientes salvam

Mesmo com os esforços das atrações nacionais e estrangeiras, Circuito Banco do Brasil apresentou falhas

iG Minas Gerais | Ludmila Azevedo |

UARLEN VALERIO / O TEMPO
Atração principal. O grupo californiano Red Hot Chili Peppers fez valer a pena as dificuldades que os fãs tiveram no festival de sábado
Definitivamente, seria o show dos Red Hot Chili Peppers. Horas antes, na MG-020, a alguns quilômetros de distância do Mega Space, onde aconteceria o Circuito Banco do Brasil ou o show dos Red Hot Chili Peppers (RHCP), centenas de jovens deixavam carros, táxis e vans uniformizados com camisetas com a logomarca da banda. Alguns cantavam. Debaixo de um sol escaldante, eles atravessaram um protesto de moradores de Santa Luzia, que durou mais de seis horas, complicou o trânsito e alterou a programação da maratona musical, mas era tudo para ouvir os principais hits dos californianos. Para o público contemporâneo de Anthony Kiedis, Flea, Chad Smith e companhia ficou a curiosidade: será que o sabor apimentado ainda faria parte do menu? Nos anos 90, quando vieram ao país pela primeira vez, os RHCP incendiaram o palco do extinto Hollywood Rock, tocando só de cueca e fazendo estripulias. Cinquentões, eles andam menos ardidos, mas ainda quentes. Kiedis faz performances sem camisa, Flea leva a turma ao delírio e a cozinha de Chad Smith ganhou o tempero brasileiro do percussionista Mauro Refosco (que toca com Flea e Thom Yorke, do Radiohead, no projeto Atoms for Peace). Josh Klinghoffe, guitarrista no lugar de John Frusciante, faz o básico sem se comprometer. O show. Com belos efeitos visuais nas projeções e um punhado de canções conhecidas como “Can’t Stop”, que abriu a festa, a vigorosa cover de Steve Wonder, “Higher Ground” e “Californication”, faltou à produção a sensibilidade de dar clima à bela “Under in the Bridge”, por exemplo, cantada em coro pelo público. As luzes fortes em cima do palco não contribuíram para a experiência sensorial que um show como uma banda desse porte pede. “Give it Way” encerrou a noite em tom de alto astral. Porém, definitivamente, não era o show dos Red Hot Chili Peppers. O Circuito Banco do Brasil não conseguiu impactar apenas com a presença do headliner por uma série de motivos. Tinha a chance de aproveitar as diversas falhas de festivais similares dentro e fora do Estado e fazer melhor. Desperdiçou. A curadoria promoveu uma salada em que atrações tão díspares como Gaby Amarantos, Jota Quest e Yeah Yeah Yes – apesar do esforço e simpatia da musa indie Karen O, foi a maior nota dissonante – tentavam prender a atenção da maioria. Pode ficar bonito na apresentação, no entanto, é inegável que na prática o público se disperse e guarde energia para os preferidos. Mistura. A questão é que festivais assim, atualmente, buscam inserir mais elementos de entretenimento, como brinquedos de parque de diversão, e no caso específico do Circuito, um campeonato nacional de skate, fazendo com que a música fique em segundo plano. Daí vêm as mesmas reclamações de áudio ruim, palco baixo, luz excessiva, sobretudo entre os que pagaram caro para ver seus ídolos dos tempos de adolescência ou de agora. A cereja desse bolo é infraestrutura (sobre a qual a organização alega estar respaldada por cumprir todas as exigências que foram feitas). Filas para comprar bebidas e alimentos caros, dificuldade de ir ao banheiro sempre lotado, caos no trânsito na hora de ir e vir. A saída do Mega Space estava afunilada, escura e confusa após o último show. Muitas pessoas rolaram perigosamente pelos pequenos morros como forma de atalho. Questionado pelo Magazine, um segurança que não se identificou, disse que “o problema era a falta de educação do público” e que eventos grandes são todos assim. O gosto apimentado se foi, ficando mais uma vez o amargo.

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