Dívida impagável

iG Minas Gerais |

Não se passa um dia sem aparecer denúncia de maus-tratos com a coisa pública. Mais ainda impressiona o conformismo da maioria da população que passou a aceitar o erro como normalidade ou situação “inevitável”. Os administradores que pilham não são punidos; desfilam esbanjando luxo e acinte num país castigado por severa pobreza que atinge 30% da população. A maioria da população não consegue relacionar a baixa qualidade da saúde pública, da educação e da infraestrutura ao desperdício, à péssima aplicação dos recursos, à pilhagem generalizada do patrimônio público, aos altos salários, às mordomias de quem pelo menos o exemplo de austeridade deveria dar. Há anos desfilam nos jornais milhares de funcionários que, apesar de a Constituição prever o teto salarial igual ao rendimento de ministro do STF, recebem muito além. Num país decente, isso não passaria em branco e, quando passasse, ao ser constatado, geraria a restituição de tudo recebido indevidamente. Aqui, não. Falta dinheiro para carteiras escolares, mas não para supersalários. Até da merenda escolar e dos remédios se rouba, e muito. Levanta-se, nestes dias, uma campanha contra a violência de grupos que reclamam saindo às ruas e quebrando tudo, indiscriminadamente, e, se baixam lei para identificar os vândalos, isso em pouco redundará. Esses são o tumor de um sistema doente. Faltam hoje ao poder constituído credibilidade, legitimidade, pulso, austeridade, moderação e sobram exemplos deploráveis: presidentes que fazem apologia de mensaleiros, com leniência e cumplicidade estampadas na cara, em frases marotas, afagos àqueles que depredaram os cofres públicos. E ainda o leitor aprova!!! Passaram-se oito anos da descoberta de desvios colossais do Banco do Brasil para as contas do valerioduto, e nada. Que ação foi feita para recuperar esses valores? Um contribuinte que deixa de recolher um tributo passa a ser cobrado com juros, correção e multas de 100%, já um mensaleiro recebe multa com valor abaixo de R$ 1 milhão apesar de ser comprovada a sua participação em desvios centenas de vezes maiores. As leis anticorrupção são risíveis, estampadas no papel e inviabilizadas pelos governantes. Os próprios bancos públicos e os privados são coniventes com os desvios de bilhões pela corrupção e também nada lhes acontece. O controle sobre movimentações financeiras se restringe a uma arma eleitoral, ou de perseguição, nas mãos de um partido que controla o Coaf. O órgão é capaz de denunciar uma movimentação de R$ 20 mil de um caseiro e de deixar centenas de milhões de reais passarem em contas de Marcos Valério, de empresas e de pessoas que possuem patrimônio muitas vezes incompatível com seus rendimentos oficiais. No processo do mensalão, não consta pedido de informações ao Coaf, não existe um extrato de conta bancária. Assim também em relação aos ministros demitidos pela presidente Dilma; nenhum deles foi incomodado com qualquer investigação mais séria. É ponto básico de uma democracia sólida ter governantes que prestem bons exemplos. O Brasil está na beira de um abismo, deixando para as próximas gerações uma dívida moral impagável.

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