Fernando Pessoa e Borges se encontram em Lisboa

iG Minas Gerais |

Intervenção sobre foto anônima de Fernando Pessoa, ele mesmo
“Sentiu-se brincando/ E disse: eu sou dois!// Há um a brincar/ E há outro a saber,/ Um vê-me a brincar/ E o outro vê-me a ver...” (Fernando Pessoa)
Em setembro de 1932, Fernando Pessoa participou de concurso documental para conservador-bibliográfico do Museu-Bibliográfico do Conde Castro Guimarães, em Cascais. Não foi aprovado. Em fevereiro de 1933, atravessou grave crise de neurastenia. Nos primeiros dias de dezembro de 1934 saiu “Mensagem”, único livro que publicou em vida. Em poucos dias despachou pelo correio, ou entregou em mãos, boa parte dos exemplares. Um dos destinatários foi Jorge Luis Borges, que estava em Londres com a mãe. No dia 24 de dezembro os dois se encontraram na Baixa, bairro lisboeta, passando a véspera do Natal no “Martinho da Arcada”, café que Pessoa frequentava quase todas as noites e no qual recebia os amigos, sempre na mesma mesa. Fernando Pessoa tinha 46 anos. Borges, 35. Foi o primeiro e único encontro e, segundo testemunhas, durou de 8 horas da noite até 6 da manhã, quando saíram cambaleando abraçados e cantando cantigas pornográficas em inglês e francês. APRESENTAÇÕES O poeta português, de cultura enciclopédica, conhecia Borges desde o primeiro livro, “Fervor de Buenos Aires”, de 1923, e o admirava bastante, tendo lido também “Luna de enfrente” (1925) e “Cuaderno San Martín” (1929). O argentino, mais interessado nas línguas anglo-saxônicas, sua paixão de toda a vida, só conheceu Pessoa ao receber “Mensagem”, percebendo imediatamente a grandeza e a estranheza que ali estavam embutidas. Ambos transitavam com desenvoltura pelo inglês, e foi nessa língua que conversaram durante as pouco mais de nove horas de duração do encontro. Do que falaram pouco se sabe. O amigo bem mais novo e biógrafo de Pessoa, João Gaspar Simões, esteve na mesa até uma ou duas horas da madrugada e conseguiu guardar parte da estranha conversação. O restante do que se conhece foi transmitido pelo Martinho, dono do café, durante os frequentes atendimentos aos dois fregueses. VISITA AO PARAÍSO Uma das lembranças mais nítidas de Simões é a de que, pouco depois de se apresentarem e trocar cumprimentos bastante triviais, Borges, para dirigir a conversa rumo a poesia de “Mensagem”, citou o conhecido paradoxo de Coleridge, “A prova”, que é o seguinte: “Se um homem atravessasse o Paraíso num sonho e lhe dessem uma flor como prova de que ali estivera, e se ao despertar encontrasse essa flor na mão – e então?”. Pessoa não conhecia o texto e ficou fascinado. Foi então que Borges, para explicar porque o citara, declamou de memória o seguinte trecho do recém-publicado “Mensagem”: “Os deuses vendem quando dão./ Compra-se a glória com desgraça./ Ai dos felizes, porque são/ só o que passa!” Pessoa, lembra Simões, ficou visivelmente emocionado. Seus olhos brilharam atrás das lentes claras. E replicou, citando “Junín”: “Sou, porém sou também o outro, o morto,/ o outro do meu sangue e do meu nome;/ sou um vago senhor e sou o homem/ que deteve as lanças do deserto.” E continuou, com os primeiros e os últimos versos de “O Mar”: “Antes que o sonho (ou o terror) tecesse/ mitologias e cosmogonias/ (...) Quem é o mar, quem sou?/ Saberei no dia/ que sucede à agonia.” O PRESENTE Ambos estavam comovidos, como observou muito depois o Martinho, que estranhava aquela conversa numa língua desconhecida, mas da qual “sentia” a entonação. João Gaspar percebeu que os dois estavam, na verdade, brincando de se conhecer através da poesia. Por outro lado, era como se tivessem alguma vergonha de conversar como pessoas comuns, eles que apenas se reconheciam através (e por causa) da poesia. Borges então replicou, com outro poema de Pessoa: “Meu dever fez-me, como Deus ao mundo./ A regra de ser Rei almou meu ser,/ em dia e letra escrupuloso e fundo./ Firme em minha tristeza, tal vivi./ Cumpri contra o Destino o meu dever./ Inutilmente? Não, porque o cumpri.” Foi quando Pessoa citou, do princípio ao fim, um texto em prosa que Borges ainda não escrevera, e apenas seria dele no futuro, o famoso “The unending gift”, assim mesmo, com o título original em inglês: “Um pintor nos prometeu um quadro. Agora, em New England, soube que morreu. Senti, como outras vezes, a tristeza e a surpresa de compreender que somos como um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos. (Só os deuses podem prometer, porque são imortais.) Pensei no lugar pré-fixado que a tela não ocupará. Pensei depois: se estivese ali, seria com o tempo essa coisa a mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos de minha casa. Agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e ligada a ninguém. Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música, e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco. (Também os homens podem prometer, porque na promessa existe algo imortal.)” SILÊNCIOS Relatam os presentes que, durante muito tempo, os dois poetas ficaram em silêncio, olhando sem ver. Parecia que estavam sozinhos, cada qual numa mesa distante. Por outro lado, pareciam um só, como se tivessem se tornado um corpo e como se as duas mentes se tornassem uma única mente, pensando a mesma coisa. O silêncio quase doía, de tão absorvente (passava muito da meia-noite e a cidade começava a adormecer) e de tão denso. Então Borges recobrou a voz, lentamente: “O mito é o nada que é tudo./ (...) Assim a lenda se escorre/ a entrar na realidade./ (...) Embaixo, a vida, metade/ de nada, morre.” João Gaspar Simões foi dormir. Martinho se desinteressou de não entender e foi cuidar dos outros raros fregueses e lavar copos. E ali ficaram Pessoa e Borges, um começando a morrer como homem, o outro continuando a viver como poeta.

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