Por que copiamos as outras culturas?

O brasileiro não tem real consciência do próprio valor

iG Minas Gerais |

Nos tempos antigos, ditavam-nos comportamentos, maneira de vestir, boas maneiras, os figurinos europeus, sobretudo o da França. A Alemanha e a Itália tinham presença nos migrantes desses países. Mas a elite brasileira, sediada no Rio de Janeiro, a capital nacional de então, preferia seguir os ritos franceses. Aí, vários colégios, sobretudo femininos, ensinavam em francês, de modo que as moças falavam corretamente a língua e se dispunham a casar-se com filhos de diplomatas e outros homens de nível social elevado. Ainda pertenço à geração que começou a estudar francês no admissão, antes de entrar no ginásio, enquanto o inglês só entrava no currículo três anos depois. A presença europeia reduzia-se estatisticamente a grupos menores, mas influenciava no imaginário e no vocabulário de tal maneira que os puristas da língua lutavam tenazmente contra os galicismos. Depois da Segunda Guerra Mundial, aconteceu o giro em direção aos Estados Unidos. Pela via do cinema, depois, dos programas de TV, e agora através da imensa parafernália midiática, a cultura norte-americana invade o Brasil com a enorme diferença de atingir a imensa massa da população. Já não se reduz à “intelligentsia” que faz cursos de economia, administração e outros afins em renomadas universidades. Entrou no cotidiano da linguagem, da comida, da maneira de vestir, de comportar-se, de adquirir bens da tecnologia. Os economistas nos alertam para a crise econômica que avassala os EUA, mas ela não influencia ainda em nada sua presença no nosso país. No fundo, revela que o brasileiro, apesar das poesias de Afonso Celso e da letra triunfalista do Hino Nacional, não tem real consciência do próprio valor. Vive do mimetismo estrangeiro. Quanto mais introjeta a cultura alienígena, mais se distancia de si mesmo, das próprias tradições que lentamente se apagam. As diferentes classes pagam alto tributo ao que vem de fora, mas diferentemente. Os hábitos caseiros atingem a quase todos, sobretudo no referente à alimentação, ao tipo de horário de vida, de trabalho, de descanso. Grupos seletos haurem em fontes do saber sofisticado das universidades. No entanto, a maioria permanece na imitação sem criticidade e originalidade. A olhos vistos, cresce a obesidade do brasileiro. Os dados estatísticos imediatamente compararam-na com a dos EUA, onde ela impera. Ao adotar o tipo de comida e de refeição, cada vez mais à base dos “burgers”, de maneira rápida, além da sedentariedade internética e televisa, a obesidade do brasileiro, a começar pelas crianças e adolescentes, alarga-se vultosamente. Equilibra um pouco o costume de andar escoteiramente, também copiando o que se chamou, em dado momento, de “fazer cooper” ou “jogging”, ambos os termos de origem norte-americana. À medida que trabalharmos a educação na perspectiva de Paulo Freire, que nos elaborou a pedagogia da conscientização, conseguiremos caminhar na dupla linha de valorizar a própria cultura e olhar criticamente a que nos chega, nunca assumindo-lhe a totalidade, mas discernindo e selecionando os aspectos correspondentes à nossa índole.

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