Odeio o meu emprego, mas...

iG Minas Gerais |

Uma boa consulta médica não pode ter menos de 30-40 minutos segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde ). E se assim fosse, pesquisar a história pessoal e familiar, dissecar o sofrimento que na maioria das vezes tem acentuada relação ao modo de vida, o meio ambiente do paciente seria fundamental para a eficiência do médico que atende em postos de saúde, convênios e clínica particular. E se houver um treinamento para um trabalho de terapia de apoio, com certeza diminuiríamos quase 2/3 dos pedidos de exames e encaminhamentos desnecessários para serviços mais complexos de saúde. Por isso, chama atenção a pesquisa que mostra que 72% dos funcionários, profissionais liberais e até autônomos são infelizes e insatisfeitos com o que fazem e que grande parte de suas queixas físicas e psíquicas são causadas pela atividade laborativa. Passei a vida escutando no meu consultório e continuo a ouvir nas palestras e cursos que ministro: “meu trabalho me mata!”, “odeio o que faço e só continuo porque preciso sobreviver...”, “o gerente (ou chefe) é descompensado, grita, humilha, adoece qualquer um!”. O certo é que passamos a maior parte do nosso tempo no trabalho, e o trânsito ainda estressa e prolonga o tempo dedicado ao trabalho. Ambiente de trabalho é, na maioria das vezes, contaminado por fofocas, competição, pressão por resultados, invejas, ciúmes, sem contar que clientes, consumidores estão cada vez mais insatisfeitos e agressivos. Ai de quem lida diretamente com o publico, desde caixas de banco ou supermercado, até os folclóricos atendentes de telemarkenting. E as enfermeiras? Pois não é o medico que fica 24 h com os morimbundos, ouvindo gemidos, dramas, mortes, nascimentos, amputações, estágios terminais de câncer. E se não bastasse o dia-a-dia terrível, ainda existem os tais plantões noturnos, que inevitavelmente adoecerá tais trabalhadores. Aliás, está aí um alerta para todos que trabalham em turnos alternados, incluindo o noturno: todos terão doenças físicas e psíquicas!!! Desde policiais militares ou civis, até os de empresas que trabalham 24h/dia. Afinal, como nos ensina a cronobiologia (ciência que estuda o relógio biológico), nosso cérebro precisa de ritmo e funciona de forma lunar, e isso foi respeitado por 150.000 anos, quando a luz trazia a necessidade de ir à caça, estimulava a vigília e a escuridão trazia o sono renovador. Tanto que, durante a noite, um hormônio chamado melatonina, que é estimulada pela escuridão, prevalece. Quando começa o dia, outro hormônio chamado cortisol é que predomina. Ora bolas, como nosso cérebro aguenta tanta falta de ritmo, tanto álcool, tanta noite mal dormida, almoço fora de hora, consumo de bobagens, falta de exercício aeróbico? Não aguenta, e como consequência somos um poço de sintomas físicos e um mal estar psíquico que nos adoece. Mas exames dão normais e dizer que o paciente está estressado, com ansiedade ou deprimido, está quase tão comum quanto a famosa “virose”. E dá-lhe Rivotril, Diazepan e Fluoxetina. Mas a lógica é sempre uma lei universal e desde que existe ser humano nosso cérebro tem duas estruturas simples e uma química que funciona da seguinte forma: estamos sempre em busca de recompensas que geram prazer, satisfação e, assim, a dopamina, neurotransmissor que promove tais emoções, inunda o centro de recompensa e a buscamos desesperadamente (daí o vício). Por outro lado, há o centro da punição ou desprazer, que evitamos ao máximo estimular, pois isso leva a sentimentos de medo, dor, culpa, angústia e perdemos serotonina, noradrenalina e dopamina. Agora, imagina trabalhar num lugar onde inexiste relaxamento, alegria, prazer? É de adoecer... Como compensar? Busca de prazeres imediatos, desde abusar de chocolates até beber em excesso, usar drogas, comprar obsessivamente, fazer sexo sem amor ou viciar nos jogos e redes sociais. É o que mais se observa atualmente e, no fundo, é trocar seis por meia-dúzia. Por fim, vale falar dos jovens trabalhadores que têm como característica mudar de emprego com frequência, serem individualistas, imediatistas e terem foco em ganhar dinheiro rápido e com o mínimo de esforço. Mas que pelo menos colocam como primeiro objetivo ter qualidade de vida. Como mudar isso? Quando as empresas e pessoas puderem quantificar o prejuízo que ambientes doentes de trabalho causam nos resultados financeiros e, enfim, investirem em ideias eficientes e ações até simples que estimulem a mudança comportamental além de singelas alterações seja da área física, social ou ambiental. Mas o que se ouve é “responsabilidade sócio-ambiental” ou o tal do SIPAT - as semanas de prevenção de acidente de trabalho, algo desgastado, chato, feita por obrigação legal - e nada mais. Meus caros, benditos os que entendem que o maior patrimônio e legado de uma empresa ou serviço é o funcionário, o ser humano! Somos a alma do negócio e infelizmente não nos apercebemos...

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