Mercearia Paraopeba ganha o mundo e pode virar franquia

Espaço de apenas 24 m² expõe mais de mil itens e faz sucesso não só em Itabirito, onde fica

iG Minas Gerais | Jáder Rezende |

Douglas Magno FOTO: Douglas Magn
A freguesa Vita Matias já tem seu nome na caderneta da casa
“Tem vitamina pra passarinho?”, pergunta dona Vita Matias, 75. “Tem, sim, senhora! Precisa de mais alguma coisa? Aqui sempre tem de tudo e mais um pouco!”, responde, com a simpatia que lhe é peculiar, o comerciante Roney de Almeida, 46, dono da mais famosa quitanda de Minas Gerais, a Mercearia Paraopeba, que se tornou referência para grandes chefs de cozinha e cuja fama vem rompendo fronteiras internacionais. Fincada no coração de Itabirito, a 55 km de Belo Horizonte, a pequena venda aceita dinheiro, vende fiado e pratica o escambo – a troca de uma mercadoria por outra – e assim atrai cada vez mais turistas à cidade natal de Telê Santana. Empolgado com o sucesso, Roninho planeja voos mais altos: além de amadurecer a ideia de lançamento de uma franquia com sua “grife”, ele desenvolve produtos de marca própria. A birosca de Roninho ocupa reles 24 m², onde ficam expostos mais de mil itens. Na organizada bagunça, que mais lembra uma instalação do artista Arthur Bispo do Rosário, tem mesmo de tudo. O diversificado mix vai de galinhas vivas e abatidas a passarinhos, produtos de limpeza, doces e pingas aromatizadas a penicos, pneus de bicicleta e ratoeiras. A miscelânea se completa com produtos de higiene sui generis, com essências diversas – como azeite de mamona –, e o curioso sabão artesanal de cinza, feito de carvão vegetal moído e gordura animal, “ótimo para a pele e o cabelo e também ziquiziras e perebas em geral”, segundo Roninho. volta ao passado. Além de pitoresco, o lugar remete muitos marmanjos à mais tenra infância. Mandiopã, manivela, peteca de pena e bodoque são alguns dos itens que chamam a atenção dos que já passaram dos 40. Até o canário belga de dona Vita foi comprado lá. “O bichinho canta que é uma beleza”, diz ela. “Venho aqui quase todos os dias. É tanta coisa boa que a gente fica até perdida”, afirma a freguesa fiel, uma das várias que costumam pendurar as contas e têm seu lugar reservado na rabiscada cadernetinha de Roninho. Fiado fideliza. Ele não se importa nem um pouco em vender fiado. “É uma forma de fidelizar a clientela”, diz o comerciante, que dispensa caixa registradora e não aceita cartões de crédito ou de débito. Perguntado sobre o faturamento de seu comércio, prefere desconversar. “Se souber, vou adoecer. É tanta correria que nem tenho tempo pra pensar em lucro”, diz. Considerável parte dos itens comercializados na mercearia é oriunda da prática do escambo, uma antiga tradição que se mantém viva em muitas cidades do interior de Minas. Roninho fornece matéria-prima para os produtores, como açúcar e frutas, e recebe em troca geleias e doces artesanais. Para garantir a diversificada oferta de produtos, principalmente da roça e sem agrotóxico, Roninho arregimentou dezenas de produtores, numa corrente que aumenta a cada dia. “Abrimos um leque para pequenos fornecedores escoarem a sua produção. Para a gente, é uma grande honra manter essa cadeia produtiva”, diz, lembrando que a estratégia foi traçada por seu bisavô, José Manoel de Almeida, e vem sendo seguida à risca até hoje. A mercearia teve origem em 1895, quando a vendinha funcionava na parte alta da cidade. A pequena produtora Olinda Lima, 60, esteve na venda durante a visita da reportagem de O TEMPO para oferecer ovos, frango e leite a Roninho. Sua produção vem de um pequeno sítio em São Gonçalo do Mato, distrito de Itabirito, e até então vinha sendo oferecida de porta em porta. “Meu marido é aposentado e essa foi a forma que encontramos de garantir uma renda extra. Com a ajuda do Roninho, espero garantir agora um Natal mais gordo e dias melhores para a minha família”, disse ela. De Itabirito para o mundo. Roninho conta que a fama internacional da mercearia começou com uma forcinha do artista plástico polonês Frans Krajcberg, que viveu lá perto e hoje reside em Nova Viçosa, no Sul da Bahia. “Ele era meu freguês e passou a fazer propaganda para os amigos da Europa. De repente me deparei com uma leva de turistas franceses, italianos e de várias outras partes do mundo. Até uma rede de TV da Austrália esteve aqui”, conta. “Depois vieram convites para feiras gastronômicas e palestras. Mas o segredo do sucesso, como sempre diz meu pai, é a simpatia”.   “Vendemos de A a Z, de anel para Papa a Zepelim, e o segredo do sucesso é ter ‘sex appeal’. Como diz o adágio japonês, se você não sabe sorrir, melhor fechar a porta” José Augusto de Almeida  seu Juca, pai de Roninho  

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