Jovens japoneses não querem namorar, se casar ou ter filhos

Juventude do país busca outras formas de viver, que não incluem a tradicional unidade familiar

iG Minas Gerais | Flávia Denise |

Quando o governo japonês mudou sua Constituição, em 1947, e libertou todos os jovens do país para se casar com quem eles quisessem, sem a obrigação de obedecer a escolha de sua família, como pregava o texto anterior, eles não imaginavam o impacto que isso teria. As consequências demoraram um pouco para aparecer, mas, a partir da década de 1980, começou-se a observar que as mulheres japonesas demoravam cada vez mais para se casar.Com a recém-conquistada liberdade, elas estavam perseguindo outros sonhos. Foram estudar e trabalhar, e descobriram a independência financeira.Foi nesse cenário que surgiram os “homens comedores de grama” ou soshoku-danshi. Eles são homens que, apesar de se declararem heteros, negam qualquer estereótipo do gênero, vivem sem sexo e procuram consumir menos. Fora de sintonia com a sua cultura, eles buscam uma nova posição na sociedade. Quem explica isso é o doutor em antropologia e estudioso da cultura japonesa Victor Hugo Kebbe. Para ele, o fenômeno é similar ao que ocorreu no Ocidente, quando as mulheres saíram de casa para investir na carreira. A mudança teve – e continua tendo – consequências em todos os aspectos da cultura japonesa, muita volta para o valor da família, do clã. Com os homens e mulheres buscando novas posições dentro do coletivo, a unidade familiar ficou enfraquecida. A doutora em comunicação e semiótica e co-organizadora do livro “Hikikomori – A vida Enclausurada nas Redes Sociais”, Cecilia Noriko Ito Saito, oferece outra explicação. Para ela, foi a crise financeira dos anos 1990 que levou a uma ruptura nas posições sociais do país. A orientação para a vida que era dada no local de trabalho passou a ser inexistente com o aumento do desemprego. Saito explica que essa crise desestabilizou a relação do indivíduo com a sociedade. A segurança de que cada um está em seu lugar e de que há uma ordem que será seguida ficou menos forte, levando muitos a se sentirem excluídos da sociedade, do coletivo.Seja devido à independência feminina ou devido ao afastamento masculino do consumismo e do sexo, não tem como negar que o índice de natalidade do país está em níveis alarmantes (confira abaixo). Apesar disso, esse comportamento não é o padrão. O casamento ainda é o sonho de muitos jovens japoneses. O que a nova tendência deixa claro é que o país está passando por uma transformação cultural profunda e precisará reforçar e renovar a relação do jovem com o coletivo.

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