Ver além das vitrines

Relação do público com as galerias da cidade muda aos poucos, segundo galeristas

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

cícero mafra/divulgação
Fotografia. Criada há cerca de dois anos, a galeria CMafra é uma das mais recentes da cidade
Uma cena se repete frequentemente em frente de boa parte das galerias de arte da cidade cuja porta de entrada tem acesso direto pela rua: as pessoas passam, às vezes param e até espiam as obras da calçada quando possível, mas poucas entram. “Há quem venha e pergunte se é necessário pagar para entrar. A maioria não sabe que pode circular pelo local sem nenhum compromisso, apenas pelo prazer de ver uma exposição, como aquelas exibidas em museus”, pontua Emmanuelle Grossi, diretora artística da AM Galeria, que surgiu há 24 anos.   Comparada à frequência de visitação em mostras realizadas em ambientes museológicos, a presença de público nesses espaços ainda é tímida. A situação relatada por Emmanuelle é reconhecida por outros galeristas de Belo Horizonte, embora seja unânime entre eles a constatação de que isso aos poucos vem mudando. “As pessoas de alguns para cá têm começado a prestar mais atenção no que acontece aqui dentro. Isso tem muito a ver com a inauguração de novos espaços na cidade ou próximos dela, como é o caso de Inhotim. Desde que ele foi aberto para livre visitação, nós sentimos uma diferença grande no modo como as pessoas passaram a se relacionar com as artes plásticas”, observa Flávia Albuquerque, proprietária da galeria Celma de Albuquerque, fundada em 1988. Para Murilo Castro, que administra a galeria de mesmo nome, localizada na Savassi, o fortalecimento da oferta de exposições tem um impacto direto que contribui para as pessoas se aproximarem mais de tais casas. “A chegada do Centro Cultural Banco do Brasil, por exemplo, é outro fator favorável ao crescimento de interesse pelo que é realizado nas galerias. À medida que se têm mais contato com diversos tipos de trabalhos, pode haver também um movimento natural em direção a projetos semelhantes que se dedicam a expor nomes consagrados ou recentes das artes visuais”, reflete Murilo Castro. Criador da CMafra Galeria, aberta há cerca de dois anos e especializada em fotografia, Cícero Mafra concorda que tem havido uma procura maior do público, porém ao seu ver essa dinâmica reflete um cenário em desenvolvimento. “Eu conversei com galeristas que passaram por esse processo em São Paulo há cerca de três anos. Lá também houve quem esbarrasse com essa postura às vezes mais distanciada do público, e isso mudou. Do lado de cá eu acredito que insistir cabe a nós”, afirma Cícero Mafra. Dentre os motivos que refletem possíveis obstáculos entre a curiosidade das pessoas e sua efetiva entrada nas galerias está o fato de ali também serem comercializadas obras de arte. Isso de algum modo inibiria quem se propõe a apenas conhecer as criações expostas. Para Flávia Albuquerque essa é sim uma questão que pode pesar na decisão do visitante em tocar a campainha para conferir os trabalhos de perto. No entanto, ela ressalta que o papel de uma galeria vai muito além de exercer essa atividade. Ilustrativo disso foi a exposição “Ai, Pareciam Eternas”! (3 Lamas)”, na qual Nuno Ramos quebrou o chão da Celma Albuquerque e afundou réplicas de partes de três casas intimamente imbricadas à vida e à memória do artista, no ano passado. Claramente não comercial, o trabalho, de acordo com ela, cumpriu sua proposta de fomentar a produção artística atual, o que seria um dos importantes objetivos do espaço que coordena. “Nós estamos interessados em mostrar o que está acontecendo no mundo das artes nesse momento. Um espaço que apenas vende obras não é uma galeria”, reforça Flávia. Um dos resultados desse projeto foi o aumento do diálogo da casa com o público. “A visitação aumentou por causa dessa exposição, que quebrou um pouco esse receio daqueles que não querem entrar porque tem que precisam adquirir uma obra”, completa. Diretora da galeria Lemos de Sá, sediada no bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, Beatriz Lemos de Sá acrescenta que ao refletir a produção artística contemporânea, esses espaços também se oferecem como oportunidades para se aprimorar o olhar. “Uma galeria pode contribuir para a educação do público à medida que cria suas exposições. Essas muitas vezes não dão nenhum lucro financeiro, mas por outro lado trazem um retorno muito positivo quando se pensa no aprimoramento do olhar do outro para as artes”, opina Beatriz. Visão semelhante é compartilhada por Goodson Caldas, um dos proprietários da Quadrum Galeria de Arte. “Ela informa e atua no processo de formação de opinião, além de divulgar os artistas. Não há apenas o lado comercial porque se pensa também na qualidade do que é exposto”, diz. Saiba mais Especializada em fotografia, a CMafra tem no acervo obras de Warley Desali, Miguel Aun, dentre outros, e exibe atualmente imagens de Cícero Mafra. Endereço: Rua Xingu, 487, Santa Lúcia. Visitação: de 2ª a 6ª, das 10h às 19h. Já a Murilo Castro mantém até o dia 16/11 a mostra coletiva “Somatório Singular II” com obras de cariocas. Endereço: Rua Antônio de Albuquerque, 377, sl. 01. Visitação: de 2ª a 6ª, das 10h às 19h; sáb. das 10h às 14h. Entrada franca em ambas. Saiba mais Amilcar de Castro , Pedro David, Manfredo Souzanetto, Sergio Sister, e Celia Euvaldo são alguns dos artistas representados pela galeria Lemos de Sá (Av. Canadá, 147, Jardim Canadá, Nova Lima). Atualmente, a Quadrum Galeria de Arte expõe dez desenhos inéditos do artista pernambucano Gil Vicente, criados em nanquim sobre papel. Endereço: Av. Prudente de Morais, 78 - Cidade Jardim). Visitação : até 9/11. De 2ª a 6ª, das 12 às 19h; e aos sábados, das 10 às 14h. Entrada franca.

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