Só, Amarante canta o exílio

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

O grande interlocutor de Amarante na concepção do disco foi seu produtor, o norte-americano Noah Georgeson
Uma das intenções de Rodrigo Amarante ao conceber “Cavalo”, disco que ele apresenta aos belo-horizontinos no palco do Granfinos, na próxima sexta (8), foi aproximar a fala do pensamento. Trabalhando nas composições desde 2011, durante o que ele mesmo chamou de exílio, pode experimentar bastante, antes de decidir que forma dar ao seu primeiro trabalho solo. “Quanto mais a gente se permite chegar ao que entendemos como a nossa essência no pensamento, no diálogo interno, mais a nossa fala vai se aproximar disso e menos medo de ser quem queremos ser a gente tem. É esse diálogo interno que eu quis levar ao papel com esse disco”, diz.    Depois de vários trabalhos coletivos bem-sucedidos – Los Hermanos, Little Joy, Orquestra Imperial e a banda do norte-americano Devendra Banhart, entre os de maior destaque – Amarante foi buscar as respostas que procurava sem companhia, dessa vez. “Eu aprendi muita coisa sozinho, observando os outros e depois tentando só. Assim, aprendi a tocar os instrumentos que toco.   Então, o próximo passo seria fazer um disco todo, ou quase todo, sozinho”, afirma. Com humor, ele explica que para que chegasse ao que almejava, a disponibilidade de tempo foi fundamental. “Eu escrevi muito antes de chegar às músicas que escolhi pra por no disco e ainda levei um tempo experimentando com sons. Foi tudo um aprendizado que tive sozinho e só com esse tempo eu pude chegar a isso. Esse disco foi uma escola pra mim e a gente sabe que fazer o segundo grau em seis meses não é a mesma coisa”.   Foco no presente As 11 faixas que compõem “Cavalo” fazem parte do repertório do show. Além delas, canções que considera ter energia parecida, entre inéditas e trabalhos anteriores. Porém, essas últimas são minoria. “Eu acho que, nesse momento, tocar músicas das minhas outras bandas nesse show que é tão particular na sua sonoridade e pessoal nas suas letras não serviria pra ajudar esse universo a se definir, a se mostrar, pelo contrário”, justifica. “É claro que seria fácil eu enfileirar sucessos dos Hermanos e Little Joy e dar assim a impressão de que foi um show mais animado, mas não é isso que eu quero e acho que isso desviaria o foco. Eu vim mostrar esse novo som, essa história delicada de uma viagem que fiz, um panorama estético diferente e isso eu prefiro preservar mesmo sendo mais arriscado. Aliás, arriscado é ter medo”.    Mesmo em turnê, Amarante já começou a escrever um sucessor para o disco. Ele também não descarta realizar trabalhos com suas outras bandas. “O negócio é achar tempo pra tudo isso”, pondera. Sobre voltar a morar no Brasil (ele mora atualmente em Los Angeles), não chega a uma conclusão definitiva. “Eu realmente não sei... Vou seguindo as sugestões do acaso e da vontade”. Além do trabalho solo, o músico gravou, junto com a Orquestra Imperial, a faixa “A Foca” da recém-lançada nova versão do clássico infantil “A Arca de Noé”, de Vinicius de Moraes. Amarante quis aproveitar a oportunidade para homenagear quem ele chamou de “o maior poeta da música brasileira”. “Eu acho maravilhoso pensar em arte pra crianças. Já fiz isso com a Adriana Calcanhotto e gostei muito, especialmente quando as crianças não são subestimadas, como foi o caso desses dois projetos”.   Rodrigo Amarante  Casa de Shows Granfinos (av. Brasil, 236, Santa Efigênia 2532-8201) Dia 8 (sexta) de novembro, às 23h.R$ 80 (inteira, 1º lote), R$ 100 (inteira, 2º lote) e R$ 120 (inteira, 3º lote).   Leia a íntegra da entrevista de Rodrigo Amarante abaixo:   Depois de participar de trabalhos coletivos tão prolíficos quanto diversos, o que agregou à sua carreira - e à sua experiência pessoal - fazer um disco sozinho? Rodrigo Amarante O que agregou à minha carreira eu não sei ainda, isso só o tempo vai dizer, mas à minha música e a mim agregou muito. Eu pela primeira vez pude escrever e agrupar as músicas que faziam sentido juntas sozinho, pude pensar em cada detalhe de cada uma, desde os primeiros versos à sala em que deveriam ser gravadas, então aprendi muito com isso. Mas o mais desafiador foi não ter com quem dividir as ideias, não ter interlocutor. Porque expressar uma idéia é transforma-la, dar forma a ela. Por isso que eu comecei a falar nessa coisa do duplo, eu precisava de alguém, mesmo que imaginário, pra transformar idéias em palavras. Em entrevista ao programa Cultura Livre, da TV Cultura, você disse que precisava fazer sozinho… por quê? RA Pra ver como ia ser, pra me desafiar, pra fazer o que nunca tinha feito antes. Eu aprendi muita coisa sozinho, observando os outros e depois tentando só. Assim aprendi a tocar os instrumentos que toco então o próximo passo dessa escola seria fazer um disco todo, ou quase todo, sozinho. Na mesma entrevista, você cita o produtor Noah Georgeson como peça fundamental no desenvolvimento do disco. Qual foi exatamente o papel dele? RA O Noah, que foi com quem eu mais fiz discos desde que saí do Brasil (Devendra, Adam Green, Little Joy) é, além de um produtor excelente, um músico extraordinário. Então ele foi aquele pra quem eu mostrava as idéias, falava como gostaria que fosse e ele sabia como levar isso a cabo, tecnicamente. Éramos só eu e ele no estúdio, ele fazia a vez de engenheiro porque escolhia as posições dos microfones e outras coisas técnicas de gravação e também me ajudava a ver aquilo que já não via, por estar tão imerso nas músicas. Mas muito importante era, como eu disse, ter mesmo que depois de ter escrito tudo, alguém pra quem eu expressava as idéias, as minhas intensões, me ajudou a ver o que eu queria poder falar sobre elas. Em entrevista à revista Trip, em 2009, você diz que prefere o pensamento à fala, porque é a situação em que podemos ser mais francos e contundentes. Essa “meticulosidade” durante a concepção do disco, foi pra deixá-lo com o máximo de pensamento? RA Eu disse isso porque acho que o pensamento é uma ação, já que nele a gente se permite ser mais verdadeiro e ver quais as nossas vontades, expressar desejos que são o fio que tece nosso destino. A fala é na maioria das vezes circunstancial, tem teor político, é poluída pelas normas sociais, a intensão de transmitir uma imagem que desejamos formar enquanto o pensamento é mais puro e revela nossas vocações e intenções pra nós mesmos de forma mais pura. Quanto mais a gente se permite chegar ao que entendemos como a nossa essência no pensamento, no diálogo interno, mais a nossa fala vai se aproximar disso e menos medo de ser quem queremos ser a gente tem. É esse diálogo interno que eu quis levar ao papel com esse disco. Eu acho que quanto mais se tem consciência da importância do poder de ação do pensamento, mais a fala se torna contundente e corajosa, mais sincera e poderosa no sentido de dar cabo a esses desejos, vocações e idéias. Eu dizia na época do começo dos Hermanos que sonho é destino e era isso que eu queria mostrar, que nosso desejos e intenções são a vela que nos leva pelo tempo, seja pro bem ou pro mal. Ter responsabilidade no pensamento é ter responsabilidade na fala e na ação. Você começou o processo em 2011: em que se refletiu essa maior disponibilidade de tempo no resultado final do disco? RA A oportunidade de poder fazer as perguntas mais difíceis e ter tempo de achar as respostas. Eu escrevi muito antes de chegar a escrever as músicas que escolhi pra por no disco e ainda levei um tempo experimentando com sons, até achar esse caminho de deixar tanto espaço no disco; de curtir o vazio que faz os sons se tornarem imensos, ainda que delicados. Foi tudo um aprendizado que tive sozinho. Então só com esse tempo eu pude chegar a isso. Esse disco foi uma escola pra mim e a gente sabe que fazer o segundo grau em seis meses não é a mesma coisa. Você disse que não pensa em público alvo ao realizar seu trabalho, mas se sente satisfeito quando as pessoas se sentem tocadas por aquilo que você fez. Como funciona essa relação com o público na sua cabeça? RA A idéia de público como um todo, a noção de uma massa homogênea que pensa igual e sabe o que quer é uma coisa que não tem a ver com arte e sim com comércio, é uma necessidade daqueles que têm que enxergar, ou ainda provar que existe, uma fatia do mercado pra viabilizar seu produto, garantir o mínimo de sucesso. Esse pensamento é emburrecedor porque nivela por baixo e ignora a capacidade das pessoas de se surpreenderem, de serem heterogêneas e mutantes. É por isso por exemplo que o jornalismo na TV é tão burro e subestimador do seu público, e termina por ser um veículo de atraso do Brasil, ao invés do que deveria ser, o oposto. Com o pretexto de focar nas classes C e D, esses veículos acabam por manter as pessoas ignorantes porque as serve de conteúdo que acreditam ser mais fácil de ser assimilado e termina por alimentar essa falta de profundidade, a ignorância. Mas isso é só um exemplo. Pois eu não acredito e nem me serve essa noção, porque sei que as pessoas são todas diferentes, que têm histórias diferentes e que estão sempre prontas a mudar mesmo não sabendo disso, a descobrir novas aptidões e panoramas. Eu entendo que meu papel seja sim propor uma nova perspectiva, apresentar um ângulo novo. Então pensar em atingir uma suposta fatia, faixa etária ou gosto é justo o oposto do que me interessa. Eu escrevo pra tocar alguém que não tenho a menor idéia de quem seja, escrevo o que me toca e deixo a consequência onde ela tem que estar. Arriscado é ter medo. E por que você decidiu escrever uma carta para acompanhar o disco? RA Isso foi uma coisa que eu fiz antes de pensar em levar ao público. Começou com uma carta a um amigo pra quem eu mandava o disco, um amigo que não via há tempos. Enquanto eu escrevia, gostei de mostrar de onde vieram essas idéias e comecei mesmo a enxergar coisas com mais clareza no ato de escrever. Então, como eu tinha que mandar um release do disco, que normalmente é escrito por uma pessoa que não o artista, eu cheguei à conclusão de que ninguém melhor que eu pra falar do disco. Além disso, muitos jornalistas preguiçosos ao invés de desenvolver um pensamento sobre o disco, simplesmente copiam o release. Mais um motivo pra usar essa carta, se vão copiar, que copiem as minhas palavras. Por fim, eu achei que se alguém quisesse se aprofundar no que me levou a escrever aquelas músicas, a saber mais a fundo de onde eu parti pra chegar ao disco, que poderia ler aquilo e ter mais um ângulo pra curti-lo. E divulguei tudo ao mesmo tempo, nenhum jornalista teve acesso antes das pessoas, então a carta também serviu de ponte direta entre mim e aqueles que se interessaram pelo disco. Sobre a música “O Cometa”, você em parceria com o André Dahmer e foi dedicada ao Ericson Pires. Como é/era a sua relação com cada um deles? RA O Ericson, já está dito na música, foi um dos meus grandes amigos e fazia parte da mesma turma que saiu da PUC do Rio junto comigo e o Dahmer, que também é meu velho amigo. Mas a música não é uma parceria, eu a escrevi sozinho. O que o Dahmer fez foi criar essa idéia de que o Ericson foi um cometa e espalhou adesivos pela cidade com essa palavra. Eu já tinha escrito a música quando vi isso nas escadas do teatro Sergio Porto e gostei tanto, que resolvi escrever mais um verso que incluísse essa palavra e assim acabou por virar o título da música. Eu me apropriei dessa idéia e transformei em música. “Cavalo” não tem uma capa, mas tem imagens de divulgação - tanto fotografias, quanto uma espécie de desenho - você acha que o propósito da inexistência das primeiras pode ser comprometido pela existência das últimas? Como você planejou essa questão das imagens relacionadas ao disco? Você disse à Folha de S.Paulo que “ouviu muito” por conta dessa decisão. Por que as pessoas se opuseram? RA Não acho que o propósito se perde porque existem fotos de divulgação ou porque no interior do disco eu escrevi meu nome à mão. Nada disso direciona a audição. Não ter foto de divulgação é impossível, seria ridículo esconder quem eu sou e não acho que isso altera o disco. O importante pra mim era não ter na capa ou dentro do disco nada que pudesse dar direção à audição. Mas não teve tanta oposição assim, isso é mais a reação que eu adoro ver quando as pessoas dizem por exemplo, "mas é assim?". Eu, quando resolvi jogar fora a capa e vi como era bela aquela página simples, resolvi que isso era mais interessante não só pelo conceito de abrir mão de uma imagem ou cor que sirva de atrativo pra música e que ajuda a entendê-la, mas muito pelas conversas que imaginei que seriam consequência disso. Essas, sim, eu gosto de ver acontecer. Quando disse que ouvi muito deve ter sido porque ela ainda estava em fase de produção quando dei aquela entrevista e eu encontrei o medo daqueles envolvidos na parte comercial que queriam, por exemplo, colar um adesivo preto em letras garrafais com o meu nome sobre a capa pra "ajudar o consumidor". Diziam que era um projeto "ousado" e por isso queriam ajustar pro "mercado". É um barato ver como tem gente acostumada com os padrões e que qualquer desvio gera uma espécie de pânico. A capa ser assim é parte do conceito de deixar espaço pra interpretação, de não subestimar a imaginação no ouvinte e também de dar um passo atrás no sentido de competir por espaço. Gritar já não funciona porque está todo mundo gritando, no sentido visual e até sonoro, na quantidade de elementos, no volume dos discos, com medo de não conseguir competir. Pois que achei legal me abster de cobertura pro meu bolo, a graça está mesmo no recheio. Na mesma entrevista à Folha, você falou que não tocaria canções de seus outros grupos no show de “Cavalo”. Além das músicas do disco, como foi pensado o repertório? De que forma ele vai variar - se é que vai? RA Escolhi, além das músicas do disco, que eu toco inteiro, aquelas que tinham uma energia parecida, uma dinâmica similar e terminei por incluir outras músicas inéditas ou que são delicadas. Eu acho que nesse momento tocar músicas das minhas outras bandas nesse show, que é tão particular na sua sonoridade e pessoal nas suas letras, não serviria pra ajudar esse universo a se definir, a se mostrar, pelo contrário. É claro que seria fácil eu enfileirar sucessos dos Hermanos e Little Joy e dar assim a impressão de que foi um show mais animado, mas não é isso que eu quero e acho que isso desviaria o foco. Além disso eu me sinto um pouco vulgar subindo no placo pra tocar músicas que, ainda que escritas por mim, foram feitas pra eles, com eles e fazem parte de um universo tão particular dessas bandas. Eu vim mostrar esse novo som, essa história delicada de uma viagem que fiz, um panorama estético diferente e isso eu prefiro preservar mesmo sendo mais arriscado.  Aliás, mais uma vez, arriscado é ter medo. Ainda pegando trechos da Folha, a matéria diz que você já tem planos para um novo disco, com mais restrições na produção do que este primeiro. A sua intenção é continuar criando sozinho ou virão coisas novas pro Los Hermanos ou Little Joy? RA Eu pretendo sim fazer outro disco solo na sequência desse, já estou escrevendo, mas isso não impede que outros discos de outras bandas também possam ser feitos. O negócio é achar tempo pra tudo isso. Há dois integrantes do Los Hermanos te acompanhando na turnê de “Cavalo”. De que forma vocês participam do trabalho - e da vida pessoal - uns dos outros, além, claro, do caso específico da turnê? RA O Barba veio me visitar em Los Angeles e gravou comigo pra esse disco, mas nós somos, eu ele e o Bubu, muito amigos, trocamos idéias mesmo à distância, é essa a nossa relação. O disco faz o seu percurso no exílio e encerra com “Tardei”, numa espécie de retorno. O que significa essa volta? Você pretende voltar a residir no Brasil? RA Não faço planos de residência a longo prazo, porque já aprendi que isso comigo acaba por não dar certo. Eu realmente não sei, a essa altura, onde vou morar daqui a mais cinco anos. Vou seguindo as sugestões do acaso e da vontade. Tenho falta dos meus amigos queridos no Brasil mas agora tenho amigos queridos espalhados pelo mundo então isso não é motivo de firmar o pé em um lugar ou outro. Imagino que deva voltar ao Brasil alguma hora, mas estou bem onde estou agora, levo uma vida simples e pacata que muito me agrada, comparada à loucura que é estar em turnê, então por enquanto vou ficando por lá. Mas já começo a sentir vontade de me mexer... como dizia Caymmi, "o pescador tem dois amor, um bem na terra, um bem no mar" e o amor do mar "é o mar, é o mar, é o mar... ". Essa entidade que representa o desconhecido, o imaginário, o sonho. Eu tenho esse amor e não parece que vai passar tão cedo. Junto com a Orquestra Imperial, você gravou uma música para o projeto “Arca de Noé”, com músicas do Vinicius de Moraes. O que te interessou nesta proposta? RA Homenagear o Vinicius que é o maior poeta da música brasileira. Como é para você realizar um trabalho voltado para as crianças? Pretende fazer outras coisas nesse sentido? RA Eu acho maravilhoso pensar em arte pra crianças. Já fiz isso com a Adriana Calcanhotto e gostei muito, especialmente quando as crianças não são subestimadas, como foi o caso desses dois projetos. O Tom Zé se apresentou com você no show do Circuito Banco do Brasil. Você planeja trazer outros convidados para os shows? RA Não tenho planos de convidar mais ninguém. Eu sinto que minha banda já é um conjunto de participações muito especiais, cada um ali é um músico que admiro e que estou muito orgulhoso e satisfeito de tocar junto. Mas o Tom Zé é um mestre com quem aprendi muito, então essa é mesmo uma participação mais que especial, uma maravilha!  

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