O fim do ócio desavergonhado

iG Minas Gerais |

acir galvao
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No último domingo, no meio de tantas notícias relevantes (para usar o adjetivo da vez) estampadas nas capas dos jornais, uma bem mais ordinária fez de mim só nostalgia. Até experimentei uma certa compaixão pelos meninos que chegaram atrasados e não conseguiram fazer o Enem, não cheguei a ficar surpresa com a rejeição quase unânime aos black blocs, esbocei um certo espanto com a organização dos criminosos virtuais que já têm até tabela de preços para suas transgressões... Mas tocada mesmo, de verdade, fiquei com a possibilidade-bastante-possível de “Sessão da Tarde” acabar. Eu sei, eu sei, é uma bobagem. E é isso mesmo, no horário em que “Sessão da Tarde” está no ar, já resolvi meia dúzia de pepinos no trabalho e muito provavelmente já me fizeram refém de uma reunião. Mas a notícia do fim provoca em mim uma melancolia que tem menos a ver com a programação da Globo do que com a certeza de que não existe mais espaço para o ócio desavergonhado, a vagabundagem sem culpa. É a chance de ficar jogado no sofá sendo jogada no precipício. “Sessão da Tarde” não é simplesmente tarde de folga. É tarde de folga de você mesmo. Nem o filme que está na sua frente exige sua atenção ou seu empenho. É só um pretexto, uma companhia, é escolher não escolher. E todo mundo tem uma lembrança particular de seu ritual indolente de depois do almoço. A minha tem a ver com lata de leite condensado sendo transformada em uma espécie de mamadeira da alegria, com tênis jogados no meio da sala, com Patrick Swayze exibindo toda sua malemolência em “Dirty Dancing” ou Matthew Broderick ensinando como curtir a vida adoidado. Tem a ver com soneca, com dever de casa adiado, com rios de lágrimas mesmo na 16ª vez diante de “Meu Primeiro Amor” e com língua queimada pelo brigadeiro que foi tirado direto da panela. Ainda hoje, tantos anos depois da vida melhor vivida na horizontal (e sem movimentos bruscos, para deixar claro), não é raro encontrar amigos desejando aquelas horas de volta, mesmo que por um suspiro. “Na minha próxima folga, não quero fazer nada. Vou ficar em casa, assistindo ‘Sessão da Tarde’”. Quantas vezes você não escutou isso?! Quantas vezes você não repetiu isso?! Mas aí aparece uma folga ou um feriado ou as férias e a turma sai enlouquecida para encher a agenda. Tem sempre uma amiga para encontrar, um filme cabeçudo no cinema que corre o risco de sair de cartaz, uma consulta que não dá mais para evitar, umas burocracias para resolver. Passar algumas horas de pernas pro ar, sem interferências, sem alertas no smartphone, sem uma conferidinha no que os amigos estão postando no Facebook, apenas exercitando a função de inspirar e expirar é quase um atentado. Na nossa contemporaneidade líquida, não fazer é a mesma coisa de não viver. Estão pensando em colocar no lugar de “Sessão da Tarde” um “Vídeo Show” incrementado, ágil, interativo. Terá auditório e um apresentador se esforçando para fazer valer seu salário. Você será convencido a fixar o seu espírito no que está sendo dito, a ter opinião sobre o que está sendo mostrado, a assumir uma postura ativa mesmo se tiver traçado três pratos de macarronada no almoço. E nunca mais 15 anos, nunca mais tempo dilatado, nunca mais deixar o viver o presente pra amanhã. Depois de um plantão no fim de semana, estou de folga hoje. Já vi que vai passar “Sexta-Feira muito Louca”. Minha intenção é matar a saudade de ficar jogada no sofá. Só pra despedir.

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